“A falta de conectividade rural é um obstáculo no Brasil”, diz presidente da AsBraAP

Marcos Ferraz, presidente da AsBraAP (Foto: Alexandre Battibugli/Divulgação)

 

*Publicado originalmente na edição 423 da Revista Globo Rural (Fevereiro/2021)

As mudanças na Lei das Telecomunicações podem impulsionar a conectividade rural e tornar 2021 o ano da inteligência artificial no campo. No dia 19 de novembro, o plenário do Senado apreciou duas matérias que estimularão o desenvolvimento e a adoção da agricultura de precisão e digital no país. Ambas seguiram à sanção do presidente Jair Bolsonaro, para posterior regulamentação.

O PL 172/20 discorre sobre a destinação de recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações(Fust), arrecadado nas cobranças de serviços de telecomunicações. A lei prevê que os recursos, antes usados para a expansão da telefonia, sejam direcionados à conectividade, para levar internet ao interior do Brasil.

Já o PL 6.549/19 trata da desoneração de dispositivos que envolvem a internet das coisas (IoT), tecnologia que permite a conexão “máquina a máquina” e comunicação em tempo real entre máquinas e implementos, sem a mão de obra humana.

 

Na avaliação do presidente da Associação Brasileira de Agricultura de Precisão (AsBraAP), o engenheiro agrônomo Marcos Ferraz, de 33 anos, as alterações nas leis – que datam do final da década de 1990, período em que a internet ainda era uma desconhecida- são uma conquista para o agronegócio, que busca a sustentabilidade pela inovação.

“A (falta de) conectividade rural é um obstáculo. O Brasil é um país muito grande, com muitas diferenças regionais, que precisam ser solucionadas logo”, afirma. A seguir, leia os principais trechos da entrevista do presidente da AsBraAP à Revista Globo Rural:

Globo Rural – A aprovação do projeto de lei que visa incentivar a internet das coisas e levar a conectividade às áreas rurais tende a impactar a agricultura de precisão?

Marcos Ferraz – Esse projeto pode mudar o cenário brasileiro, com o aumento da inserção de tecnologias no campo e até a criação de novas tecnologias. A conectividade no Brasil é um gargalo, pois, quando você vai implementar ou trazer uma tecnologia de fora, as áreas rurais sofrem com essa limitação. Você sempre tem de pensar: será que a minha área tem conectividade? Será que esse software roda online ou offline? Sempre há limitações técnicas para o uso da tecnologia no campo. Fomos uma das entidades que apoiaram esse PL.

GR – Após a sanção do presidente, em quanto tempo você acredita que o campo terá mais conectividade?

Ferraz – O PL vai gerar recursos para que os investimentos sejam feitos, mas existem ainda alguns fatores limitantes, como o interesse das companhias telefônicas. Talvez a internet das coisas, a comunicação máquina a máquina, possa fazer com que as companhias telefônicas se interessem pelos negócios rurais para ampliar a rede e levar mais conectividade ao campo.

 

GR – Podemos considerar que o agronegócio brasileiro adotou para valer a agricultura de precisão e suas ferramentas?

Ferraz – Estamos em uma curva ascendente, evoluindo exponencialmente, mas ainda há um bom caminho a percorrer. O percentual exato de adoção da agricultura de precisão no Brasil é um dado muito difícil de se obter, mesmo com as pesquisas que são realizadas por várias entidades. Isso porque as ferramentas que a agricultura de precisão oferece são inúmeras: há agricultores que usam só o GPS para a orientação do pulverizador, os que usam mapeamento de solo para a aplicação de taxas variáveis de fertilizantes, ou ainda os que usam imagens de satélite. As pesquisas indicam o percentual dos que usam cada ferramenta, mas não o todo.

GR – Existem setores que estão mais avançados?

Ferraz – Há alguns setores, como o de cana-de-açúcar e o de grãos, que adotaram a agricultura de precisão mais fortemente. Nos outros setores, ainda há discrepâncias. Também entendemos que a agricultura de precisão é um conceito, é uma ferramenta de gestão de informações, e não dá para medir em números o que as pessoas estão fazendo com a informação que têm nas mãos. O que sabemos é que estamos saindo da era da agricultura média, quando tudo era feito da mesma maneira na fazenda inteira, e indo para a agricultura localizada, em que cada pedacinho da fazenda é tratado de forma diferente e mais eficiente. O custo para o produtor cai e o risco mais ainda.

As pessoas de todas as gerações já incorporaram o smartphone ao dia a dia. Acessar a internet, usar aplicativos, não tem barreira de idade, e os agricultores, inclusive os mais velhos, querem que a lavoura deles seja replicada no mundo digital”

Marcos Ferraz

GR – Quais são os gargalos que dificultam a adoção da agricultura de precisão pelo agricultor brasileiro?

Ferraz – O conhecimento é o principal. Se os profissionais da agronomia não forem treinados e capacitados para essa nova agricultura, é impossível evoluir no setor. É preciso levar conhecimento aos profissionais do setor, ensiná-los como trabalhar nessa nova agricultura, ensiná-los a ler os mapeamentos. E é importante destacar que esse conhecimento tem de ser disseminado para todos os lugares, não pode ficar represado nos polos. O Brasil é muito grande e ainda existem propriedades que não têm condições de adotar tecnologias avançadas. Temos o problema severo da falta de conectividade rural. Outro fator é o custo das tecnologias facilitadoras, pois não temos muitos benefícios para comprar uma máquina embarcada de alta tecnologia quando comparamos a uma máquina convencional, sem tecnologias avançadas.

Equipamento de pulverização localizada (Foto: Foto: Alexandre Battibugli VSP)

 

GR – Existe resistência por parte da geração mais experiente em aderir?

Ferraz – Tem muita gente que fala que a agricultura de precisão só vai pegar quando a nova geração assumir, mas eu não acredito nisso. A gente já foi engolido pela tecnologia, pelos aplicativos, pela digitalização dos processos no campo e na nossa rotina. Antigamente, era muito difícil obter uma imagem por satélite. O agricultor precisava pagar, baixar um mapa pesado no computador, pedir autorização. Hoje, qualquer pessoa faz isso em segundos, pelo smartphone, de graça. As pessoas de todas as gerações já incorporaram o smartphone ao dia a dia. Acessar a internet, usar aplicativos não tem barreira de idade, e os agricultores, inclusive os mais velhos, querem que a lavoura deles seja replicada no mundo digital. O agricultor é antenado.

GR – A AsBraAP tem algum tipo de projeto voltado para disseminar esse conhecimento?

Ferraz – Estamos fazendo eventos de capacitação, tanto voltados para os nossos associados como para o público em geral. Nos últimos meses, utilizamos o ambiente virtual para fazer várias reuniões, falar especificamente sobre alguns temas, uso de ferramentas, etc. Esses eventos ajudam a disseminar o conceito da agricultura de precisão.

 

GR – De 2004 até hoje, o segmento já passou por inúmeras revoluções e surgiram novas tecnologias. Quais foram as mudanças mais profundas no segmento?

Ferraz – Há 20 anos, quando a agricultura de precisão começou a ser implantada no Brasil, usávamos georreferenciamento para mapear a fazenda e traçar um mapa de fertilidade que iria indicar onde o produtor precisa aplicar mais ou menos insumos, fazer correções do solo. Na época, isso era a maior novidade. Ter um piloto automático, então? Era o máximo… Hoje, é um item básico, o que a gente quer não é só a máquina que anda sozinha, mas a máquina que fala com outra máquina, que toma as decisões. Atualmente, o produtor rural tem à sua disposição informações em todas as áreas, tem uma infinidade de informações armazenadas em nuvem. Hoje, é possível modelar a produção com uma assertividade alta. É possível prever a produtividade muito melhor, com tantas informações. E tudo isso ainda vai evoluir mais nos próximos anos, estamos caminhando para termos uma modelagem agrícola cada vez mais eficiente. A maior revolução foi a geração de informações.

GR – Qual ferramenta de gestão que você considera a mais avançada atualmente?

Ferraz – A inteligência artificial. As tecnologias vêm trazendo uma quantidade absurda, um volume infinito de dados, e essas informações só podem ser interpretadas com técnicas de inteligência artificial, que são ferramentas de análise, que aprendem a partir de outros dados. Os dados coletados passam a interpretar as novas informações. Os algoritmos são capazes de pegar todas essas informações e encontrar respostas claras para o produtor.

GR – Como você enxerga uma fazenda no Brasil daqui a dez anos?

Ferraz – A maioria das pessoas imagina que o agricultor estará sentado na sombra, tomando um suco e só enviando os comandos pelo computador. Mas não é bem assim. Na fazenda do futuro, ele não vai nem precisar fazer isso, porque as máquinas poderão se comunicar entre si e tomar as melhores decisões. Claro que isso só vai acontecer se resolvermos o problema da conectividade rural, mas já estamos buscando essa solução e tivemos um avanço fantástico.