Búfalas de Brotas: veterinária que fez a necropsia dos animais explica riscos ambientais e sanitários

Um caso que chocou o país pela crueldade, o abandono de mil búfalas em uma fazenda, em Brotas (SP), também representava um risco à saúde pública caso não tivesse sido descoberto por policiais e militantes da causa animal no último mês. Uma das responsáveis pela necropsia para averiguar a causa da morte das centenas de carcaças encontradas no local, a médica veterinária e chefe do Serviço de Patologia Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, Claudio Momo, explica que o caso poderia ter ganhado contornos ainda mais graves.

Carcaças de búfulas mortas abandonadas em fazenda são foco de proliferação de doenças e bactérias (Foto: Catharina Bastos/ARA)

 

“Animais que morrem no pasto, o cadáver não pode ficar no pasto, tampouco ser enterrado numa vala comum, porque esse animal em decomposição pode abrigar bactérias e organismos altamente patogênicos, entre eles o Clostridium botulinum, presente em fezes, alimentos e solo”, explica a médica veterinária. “Essa bactéria, quando está em local com anaerobiose (sem oxigênio), desesporula e passa a se multiplicar e a produzir uma toxina altamente letal, que é a toxina botulínica”, completa, ao lembrar que a intoxicação pela toxina botulínica é a principal causa de morte em bovinos no país.

 

“Existem várias bactérias que colonizam o cadáver ou que até poderiam já estar no animal sem causar nenhum tipo de enfermidade. Mas depois que ele vem a óbito, elas se proliferam e contaminam o ambiente. Por isso existe uma preocupação muito grande para dar o destino correto a todos os cadáveres”, ressalta Momo.

Foi justamente por isso que ela, em conjunto com a chefe do Setor de Patologia Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária da Unesp Araçatuba, Daniela Rozza, e outros quatro médicos veterinários, sugeriu a compostagem dos cadáveres após a conclusão das investigações. A destinação final do material contudo, está sob responsabilidade da Cetesb, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo.

Em entrevista ao G1, o proprietário do rebanho, Luiz Augusto Pinheiro de Souza, se defendeu das acusações de maus tratos alegando que “existe uma diferença em ‘deixar para morrer’, como dizem, e ‘morrer naturalmente’”. Segundo ele, os animais seriam, na maioria, vacas que estão velhas, que procriaram, produziram e, por isso, não poderiam ser simplesmente enviadas para o abate.

“Eu não posso matá-las, mandá-las para o abate, só porque estão velhas. O animal vai ficando velho e vai tendo dificuldade de locomoção, perde os dentes, não consegue absorver todos os nutrientes e vai emagrecendo”, alegou o fazendeiro. Luiz Augusto foi procurado pela reportagem da Globo Rural, mas negou pedido de entrevista. 

 

A veterinária Claudio Momo não revela as conclusões do laudo que enviou ao delegado responsável pelo caso, Douglas Falsarella, mas adiantou que parte do seu trabalho é, justamente, determinar a idade dos animais encontrados mortos – o que pode ser feito com uma simples análise da dentição dos cadáveres.

“Se a gente pensar que todos os animais vão morrer em algum momento, o que acontece é que eles não morrem todos no mesmo período de três meses. Se existe uma alta taxa de mortalidade durante um curto período, algo está errado”, destaca a chefe do Serviço de Patologia Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP.

De acordo com o boletim de ocorrência registrado pelos policiais que estiveram no local, foi encontrada uma vala na qual suspeita-se que 100 a 150 animais tenham sido enterrados de forma irregular. A situação, explica Momo, eleva ainda mais o risco à saúde humana e de outros animais do local.

“O líquido que sai dos cadáveres em decomposição pode contaminar o lençol freático e isso é um risco para as pessoas que bebem essa agua, sim. Por isso a preocupação tão grande para tratar esses cadáveres, não só pela intoxicação dos animais, mas pela contaminação do lençol freático que pode sim gerar um problema sério para a saúde pública”, completa.

 

Em entrevista à Globo Rural, o delegado responsável pelas investigações adiantou que também abrirá inquérito para averiguar crimes contra a saúde pública praticados pelo dono do rebanho. Segundo ele, o produtor extraía leite das búfulas numa estrutura precária e em desacordo com as normas sanitárias vigentes no país.

Nesse caso, explica Claudia Momo, a prática representava risco de disseminação da bactéria Listeria monocytogenes. “Animais contaminados por essa bactéria e que sejam ordenhados, se esse leite for aproveitado sem o tratamento necessário, ele também pode causar meningite, principalmente em crianças”, alerta a médica veterinária.