Cabruca: sistema pode levar o Brasil à autossuficiência no cacau sustentável

O litoral sul da Bahia ainda guarda muito da cultura cacaueira original. Não existem mais os coronéis, nem as disputas violentas pela posse da terra do início no século passado – e muito menos a vassoura de bruxa, doença que dizimou boa parte das lavouras nos anos 1990, levando famílias poderosas à pobreza extrema. No entanto, ainda há o resquício de uma atividade que poderá tornar o Brasil autossuficiente na produção da amêndoa de forma sustentável, uma exigência do mercado global.

Um estudo realizado por Cocoa Action Brasil, Instituto Floresta Viva (IFV) e pela Brown University, de Rhode Island (EUA), apontou que 78% das propriedades produtoras de cacau daquela região possuem sistema de produção considerado ambientalmente mais sustentável, o cabruca.

Os pesquisadores por quatro anos acompanharam o dia a dia de 3 mil produtores rurais da região, dos quais 2.443 são pequenos agricultores, que cultivam cacau em áreas inferiores a 20 hectares, sem acesso à assistência técnica e ao crédito rural, que frequentaram a escola por sete anos, em média, estão na faixa dos 62 anos de idade, trabalham com a ajuda de suas famílias e vendem sua produção a armazéns da região ou a atravessadores.

Na foto, mãos femininas seguram um fruto de cacau cortado ao meio. Com incentivos, o Brasil pode voltar a ser autossuficiente na produção da amêndoa em cinco a oito anos (Foto: Editora Globo)

 

Pedro Ronca, coordenador do Cocoa Action Brasil, explica que o estudo será a espinha dorsal para a elaboração de um plano de fomento à cadeia do cacau, que deve começar com assistência técnica e investimentos na região. “Identificar quem são e onde estão esses produtores foi um primeiro passo para levarmos o básico, que é assistência técnica e dinheiro”, afirmou. “Vai ser preciso destravar esses gargalos para que consigamos ajudá-los a aumentar a produtividade do cacau na região e, consequentemente, melhorar a vida desses agricultores com o fruto que eles já produzem, da forma como produzem, sustentável.”

Segundo Ronca, as entidades envolvidas passarão a estreitar o diálogo com governo, associações, cooperativas e empresas para buscar corrigir os gargalos e aumentar a produtividade das lavouras. “O cooperativismo ainda é pequeno na região, algo em torno de 8%, mas é uma das vias que vamos trabalhar, além de parcerias com as empresas processadoras, que estão todas instaladas na região de Ilhéus”, explicou. “Esses agricultores sequer têm ideia de como obter crédito para o custeio da lavoura.” Na safra 2020, enquanto o volume de crédito de custeio para o café somou R$ 4 bilhões e para a soja R$ 30bilhões, o cacau somou apenas R$ 32 milhões, exemplifica.

Infográfico (Foto: Núcleo de arte/Editora Globo)

 

O pesquisador Rui Rocha, do Instituto Floresta Viva (IFV), um dos coordenadores do estudo, explica que os dados revelam aspectos importantes sobre o setor cacaueiro. “Não somente os desafios, mas também, e principalmente, os caminhos para buscarmos soluções”, afirmou. O relatório foi financiado pelas empresas e entidades participantes do Cocoa Action Brasil (Barry Callebaut, Cargill, Dengo, Mars, Mondelez, Nestlé, Olam, RainforestAlliance e Instituto Arapyaú) e teve o apoio institucional da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) e da Associação Brasileira das Indústrias de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab).

 

O estudo foi realizado em 26 municípios do litoral sul da Bahia, que vai da Península de Maraú até Canavieiras e abraça uma àrea de 15 mil quilômetros quadrados, onde existem 16.589 propriedades rurais que se dedicam à produção do cacau (55% têm área menor que 20 hectares, 79% são propriedades de até 50 hectares e 18,6% são áreas grandes, entre 50 hectares e 300 hectares. O tamanho médio das lavouras é de 12 hectares por propriedade).

Para comercializar o cacau produzido, vendem diretamente a armazéns (69%), atravessadores (19%) e para as indústrias de processamento (12%), que estão todas localizadas em Ilhéus. Na média, o cacau representa 79% da renda das propriedades, mas, em 50% delas, a renda mensal é inferior a R$ 1.600. “Devido à baixa rentabilidade, os mais jovens buscam trabalho na cidade e abandonam a atividade agrícola”, afirma Ronca.

 Na foto, Pedro Ronca, coordenador do Cocoa Action Brasil (Foto: Divulgação)

 

O agricultor que possui uma lavoura de cacau com produtividade de 1.000 quilos por hectare pode lucrar, em média, R$ 4 mil por hectare, segundo Pedro Ronca, da Cocoa Action no Brasil. No entanto, o estudo revelou que, na região, a média de produtividade hoje em dia é de 185 quilos por hectare (ou 12 arrobas por hectare ao ano). “É uma produtividade muito baixa para o potencial imenso que essa região oferece aos agricultores”, afirma. “É como desperdiçar algo precioso que pode melhorar a vida de milhares de pessoas.”

Segundo ele, o cacau já pode dar um bom lucro quando a produtividade atinge 800 quilos por hectare, e uma ótima produtividade gira em torno de 1.500quilos por hectare. “Financeiramente, o cultivo do cacau é superior a culturas como a soja, que apresenta rentabilidade média de R$ 2 mil por hectare, ou a pecuária, em torno de R$ 300 por hectare”, afirma o especialista. “Ambientalmente, o cacau permite ser cultivado em sistemas agroflorestais, como é realizado na Bahia e no Espírito Santo, sem a necessidade de desmatamentos, ou, ainda, como é noPará e em Rondônia, onde as lavouras de cacau foram implantadas em áreas de pastagens degradadas, recuperando essas regiões, geralmente de pastagens degradadas.”

Devido à baixa rentabilidade, os mais jovens buscam trabalho na cidade e abandonam a atividade agrícola”

Rui Rocha, Pesquisador do Instituto Floresta Viva

 

Um dos maiores especialistas em produção sustentável do mundo, Ernst Göstch, acredita que esse jeito natural de produzir cacau coloca os pequenos produtores em uma situação que, futuramente, e se houver apoio dos órgãos governamentais e privados, com estratégias específicas, em vantagem em relação aos demais produtores. “É o jeito mais sustentável de produzir cacau que existe no planeta”, afirma.

Göstch cultiva em Piraí do Norte (BA), também na região sul da Bahia, 100 hectares de cacau cabruca ou agroflorestal. “Utilizando o controle biológico correto e o manejo integrado de pragas (MIP) para manter o equilíbrio ambiental, a lavoura não precisa de nenhum tipo de defensivo químico ou elemento externo”, diz, citando inclusive a ameaçadora vassoura de bruxa.

Se houver uma conversão de interesses e diálogo entre todos os elos da cadeia, o Brasil pode voltar a ser autossuficiente”

Anna Paula Losi, diretora da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau

 

De acordo com dados da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), na safra passada as indústrias processadoras de cacau receberam 174.283 mil toneladas da amêndoa, um volume maior que o recebido na safra anterior (166.327 toneladas), mas muito aquém em relação às 228.811 toneladas da safra 2012. Para atender à demanda das indústrias, 35 mil toneladas de cacau foram importadas de países como Costa do Marfim e Gana. Anna Paula Losi, diretora executiva da AIPC, diz que, juntas, as indústrias que atuam no Brasil poderiam processar até 275 mil toneladas de cacau por ano. “Temos um déficit de 100 mil toneladas”, afirma.

Na foto, Anna Paula Losi, diretora da Associação das Indústrias Processadoras de Cacau (Foto: Divulgação)

 

Anna Paula acredita que “se houver uma conversão de interesses e diálogo entre todos os elos da cadeia, para minimizar os gargalos que o setor enfrenta, em um prazo de cinco a oito anos, o Brasil pode voltar a ser autossuficiente e produzir algo em torno de 220 mil toneladas de cacau por ano. Não esporadicamente, mas uma safra constante com esse volume”.

Em 2020, juntas, as indústrias (Barry Callebaut, Olam e Cargill, que respondem por 95% do processamento do cacau em território nacional) moeram 219 mil toneladas de cacau. A demanda por chocolate caiu fortemente devido ao isolamento social imposto pela pandemia. Em 2021, não deve ser diferente.

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