Com oportunidade e acesso à tecnologia, jovens fincam pé no campo e conquistam prêmios

Já fomos chamados de doidos por pessoas que nos viram coletando sementes no Cerrado.
Quem diz é Fabrícia Santarém Costa, de 21 anos, agricultora de Montezuma, município localizado numa área de transição entre o Cerrado e o Semiárido em Minas  Gerais. Ela faz parte do Grupo de Coletores de Sementes do Cerrado, que atua na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Nascentes Geraizeiras, no Alto Rio Pardo. O grupo surgiu da necessidade de restaurar as áreas degradadas da unidade de conservação. Parte das sementes coletadas é vendida, gerando renda aos participantes.

A orientação técnica para os coletores vem do engenheiro florestal Nondas Ferreira da Silva, de 30 anos, que mora na comunidade Brejinho de São Camilo, na zona rural de Rio Pardo de Minas. “O trabalho de formação e treinamento junto às comunidades visa valorizar a  presença do jovem no campo, à criação de alternativas e ao desenvolvimento de renda.” 

Coletores de sementes em Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) no Alto Rio Pardo (MG) (Foto: Divulgação)

 

A iniciativa de Fabrícia, Nondas e dos amigos coletores foi uma das escolhidas para  conquistar o 1º Prêmio Inovação Juvenil Rural, promovido pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA ou IFAD, na sigla em inglês), instituição financeira  internacional com sede em Roma, na Itália.

O prêmio, que está selecionando os classificados da segunda edição, é destinado a jovens de 18 a 35 anos de países da América Latina e Caribe que tenham iniciativas rurais implantadas ou em processo de implantação sobre novos produtos ou métodos de produção, novas formas de organização socioeconômica, desenvolvimento de novas fontes de matérias-primas e suprimentos e criação de estruturas de mercado.

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No Brasil também foram premiadas outras três iniciativas. O projeto Gralha Azul, rede de turismo colaborativo entre os jovens empreendedores e os moradores do município de Turvo (PR), ganhou na categoria geração de renda. Na categoria segurança alimentar, quem  venceu foi o Grupo Pé na Terra, formado por duas jovens famílias de produtores rurais e um restaurante de Sananduva, no Rio Grande do Sul, que promovem agricultura familiar saudável e ecorresponsável. A startup Raiz, formada por dois jovens engenheiros que se dedicam a valorizar o trabalho dos pequenos produtores orgânicos do Espírito Santo, venceu em inovação tecnológica.

O objetivo do prêmio do FIDA é empoderar a juventude, incentivar sua fixação no meio rural e gerar um crescimento econômico dinâmico. “Os jovens são menos avessos a correr riscos, melhores para inovar e adotar novas tecnologias. Essas habilidades serão essenciais para a reforma do sistema alimentar e a adaptação ao desafio global da crise climática”, diz a instituição.

Os jovens premiados fazem parte de uma minoria que se sentiu estimulada a permanecer ou se mudar para o campo graças, principalmente, às oportunidades de trabalho que eles criaram e ao acesso às novas tecnologias. O último Censo Agropecuário do Instituto  Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2017, mostrou que, enquanto pessoas com mais de 65 anos representavam 23% dos moradores das áreas rurais ante os 18% do censo de 2006, a faixa etária até 35 anos era de 12% ante os 17,4% do  levantamento anterior. Considerando apenas os menores de 25 anos, a taxa era de 2% e 3,4% anteriormente.

 

A engenheira agrônoma e pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Fagoni Fayer Calegari diz que os jovens têm elevado potencial de participação produtiva, mas estão na idade mais vulnerável ao êxodo rural. Fagoni e o colega Ivan Alvarez conduziram uma pesquisa da Embrapa no Circuito das Frutas em São Paulo, em 2017 e 2018, sobre a importância das políticas públicas para a juventude rural e concluíram que essa geração tem interesse em assumir a propriedade da família desde que consiga gerar renda e ter qualidade de vida.

Na questão da qualidade de vida no campo, diz a pesquisadora, o acesso à internet é item fundamental. “Sem conexão, o jovem não vai permanecer no campo mesmo tendo capacitação para o trabalho. Sem falar que, na área urbana, ele tem outros atrativos, como shoppings, cinema, shows, cursos de inglês, capoeira e muitos outros.” 

Quem também destaca a necessidade de investimento em conectividade no campo como forma de fixar o jovem é o deputado federal, agricultor familiar e presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais, Vilson Luiz da Silva. No mês  passado (maio), ele levou para uma audiência pública na Câmara a discussão da internet no campo como uma forma de fortalecer a agricultura familiar, que responde por 76% das propriedades rurais e por 23% da produção de alimentos.

O deputado de 64 anos cita sua experiência pessoal. Diz que nasceu na roça com a ajuda de uma parteira, assim como os quatro irmãos. Todos foram criados para trabalhar no campo, quando não havia energia nem água encanada. Seu sítio de 15 hectares,em Cláudio (MG), onde planta milho, feijão, mandioca, frutas e tira leite, ainda não tem internet. O filho, Luiz Augusto, cursou engenharia aeroespacial e nunca cogitou suceder o pai no campo.

Além das políticas públicas específicas para sua faixa etária, representantes da juventude rural que participaram da audiência apontaram a necessidade de assistência técnica, políticas para comercialização dos produtos e combate ao aumento da violência no campo.

Sem conexão à internet, o jovem não vai permanecer no campo, mesmo tendo capacitação para o trabalho”
Fagoni Fayer Calegari, pesquisadora da Embrapa

Helena Silva, coordenadora de metodologia de extensão rural da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater/MG), lembra que é necessário criar atrativos para fixar o jovem no campo. A entidade desenvolve atividades para envolver os jovens nas políticas públicas da agricultura familiar e já observa um maior retorno ao campo da geração que sai para estudar. 

Segundo a coordenadora, a Covid-19 abriu oportunidades para a permanência de mais jovens no meio rural. “A pandemia mostrou, por exemplo, a possibilidade de investir na comercialização por meio das redes sociais. Os jovens viram essa oportunidade e criaram planilhas, links de vendas, posts no Instagram, Facebook, WhatsApp, entre outros. Mas, por outro lado, houve prejuízos na educação para os que não têm acesso à internet.” 

O Grupo de Coletores de Sementes do Cerrado nasceu em 2017 devido à necessidade de recuperar as áreas degradadas da RDS de 38 mil hectares em Minas Gerais. “Na região, tinha muito plantio de eucalipto, o que afetou bastante a questão hídrica”, diz Fabrícia Santarém Costa, uma das líderes do projeto, que aprendeu na prática a importância da conservação do Cerrado pela semeadura direta de sementes coletadas na área. 

 

A orientação veio do projeto Bem Diverso, que tem parceria com a Embrapa e atua para a conservação da biodiversidade brasileira, visando assegurar os modos de vida das comunidades com geração de renda e melhoria da qualidade de vida. “Comecei a conhecer as espécies nativas no grupo. Antes, nem sabia o que era bioma, mas aprendi a importância da restauração do Cerrado e o potencial econômico e social do nosso trabalho”, conta Fabrícia.

Junto com outros jovens e também idosos das 33 comunidades, ela coleta sementes de árvores como amarelinha, marcela, jatobá, ipê, cabreúva, pequi e outras, além de arbustos e capim. As sementes são conservadas de forma adequada para garantir a germinação na época das chuvas. Já foram restaurados 12 hectares. A venda de sementes para empresas gera renda para manter os jovens no meio rural. “Já chegamos a vender 500 quilos de sementes emumano.” Atualmente, o grupo se prepara para abrir uma cooperativa, que vai armazenar e comercializar as sementes.

Projeto Raiz comercializa por mês de 80 a 100 toneladas de alimentos orgânicos (Foto: Divulgação)

 

O engenheiro florestal José Eduardo Rosa Scardua, de 32 anos, e o engenheiro civil Flávio Silvério Jr., de 34, iniciaram um negócio de venda de cestas de produtos orgânicos de parceiros em 2018, no Espírito Santo, e enfrentaram o desafio de equilibrar o suprimento. “Quanto mais cestas a gente vendia, menos tínhamos certeza de quais produtos poderíamos entregar, porque não havia um casamento entre a oferta e a demanda”, diz Scardua. 

Para entender o mercado, ele visitou sítios, mercados e feiras em vários Estados e descobriu que faltava gestão da produção em todos os lugares. “Retornei para casa e mudamos o modelo de negócio, criando uma startup que une empresas que querem comprar os orgânicos e produtores que querem vender.” O sistema levanta a previsibilidade de produção das frutas e hortaliças por meio de inteligência artificial para casar com a demanda identificada.

 

A empresa, que se chamava Raiz Capixaba, ultrapassou as fronteiras estaduais e passou a ser apenas Raiz. Tem parceria hoje com mais de 400 produtores no Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo e fornece orgânicos para pessoas jurídicas, escolas, restaurantes e mercados. 

Scardua é urbano, mas morou dois anos em uma fazenda na Bahia. O sócio fica na roça, em Santa Maria de Jetibá, cuidando do galpão da empresa, que recebe a maioria dos produtos para a verificação de qualidade. Por mês, são comercializadas de 80 a 100 toneladas de alimentos. Em 2020, a Raiz, com 13 funcionários, cresceu oito vezes. Neste ano, a previsão de faturamento é de R$ 2,7 milhões.

Membros da equipe da Gralha Azul, que tem quatro jovens contratados entre 20 e 25 anos e mais oito colaboradores (Foto: Divulgação)

 

Mauricio Grando Pilati, de 25 anos, se formou em comunicação social e propaganda, voltou para a zona rural onde nasceu e criou, em 2018, uma rede colaborativa de turismo. Seus parceiros são 38 famílias de quilombolas, indígenas e donos de sítios do município de Turvo, no Paraná. Os clientes vêm de várias partes do país, interessados em conhecer como vivem as comunidades, adquirir artesanato, fazer novos roteiros, que incluem trilhas e cachoeiras, e experimentar a gastronomia diretamente no quilombo, nas aldeias ou nos sítios. 

“Eu morava no sítio e via a diferença quando fazia mochilão por outras localidades. Turvo tem os cenários mais bonitos, uma diversidade cultural enorme, que inclui os indígenas das etnias guarani e kaigang, os quilombolas e muitos imigrantes europeus. São dez etnias vivendo no município, mas ninguém usava isso para gerar renda.” 

 

Os roteiros dos passeios são personalizados e os guias são escolhidos entre os jovens das próprias comunidades. “O êxodo rural é muito grande no município. O turismo veio como opção para as famílias e comunidades tradicionais terem uma renda extra e os jovens perceberam a oportunidade de ganhar dinheiro e valorizar sua cultura. Já temos casos de quem desistiu de ir para a zona urbana para participar das atividades familiares voltadas aos turistas.”

A equipe da Gralha Azul tem quatro jovens contratados entre 20 e 25 anos e mais oito colaboradores. Atendeu até dezembro de 2019 mais de 1.500 turistas e serviu 3.314 refeições típicas. Desde janeiro do ano passado, os roteiros foram interrompidos, por causa da pandemia, e devem voltar no fim do inverno. Enquanto isso, Pilati e sua equipe desenvolvem novos passeios e se capacitam para abrir uma agroindústria de processamento dos frutos nativos da região.

Jovens produtores de Sananduva (RS) (Foto: Divulgação)

O projeto Pé na Terra, do Rio Grande do Sul, uniu uma família de jovens produtores que adotaram a agroecologia, um jovem agricultor que transformou seu sítio convencional em agroflorestal e um restaurante chamado Utopia. A produção de alimentos orgânicos do Sítio Dossel e do Viva Flor é certificada pela Rede de Agroecologia Ecovida. São 120 variedades de frutas, vegetais, sementes, flores comestíveis e mel de sistemas agroflorestais.

Naiara Aguiar Santestevan, de 33 anos, dona do Viva Flor, diz que, além de comprar os alimentos produzidos pelos dois sítios, o Utopia abriu espaço para a realização de uma feira semanal da agricultura familiar. O que não é vendido na feira, que oferece ao consumidor diversos alimentos in natura, como verduras, frutas nativas, caruru, folha de beterraba e ora-pro-nobis, se torna alimento no restaurante, evitando o desperdício. 

“A premiação foi importante para mostrar o trabalho que nos permite ficar no campo gerando renda e mantendo a preservação do meio ambiente”, diz a professora Naiara, que morava em Porto Alegre, mas se mudou para a zona rural de Sananduva em 2015 com o marido, o engenheiro agrônomo Emanuel Hollenbach, atraída pela possibilidade de recuperar ambientalmente o sítio dos sogros e de dar aulas no município.

Por safra, o casal produz 2 toneladas de alimentos, que são comercializados no Utopia e também com parceiros da EcoVida.