Consumidores aprovam uso de soja nos alimentos, mas transgênicos ainda são tabu

Alimentos plant-based à base de soja (Foto: Pixabay)

 

 

 

 

 

 

Maior produtor mundial de soja, o Brasil está diante de uma nova oportunidade para a oleagianosa: abastecer a ascendente indústria plant-based, que tem no grão um de seus ingredientes mais conhecidos e aceitos pelos consumidores.

É o que apontou pesquisa coordenada pelo The Good Food Institute (GFI) junto ao Ibope, que ouviu 2 mil brasileiros de todas as regiões. Segundo o estudo, que foi financiado por 11 empresas da indústria de alimentos, a soja é vista como saudável por quase 59% dos entrevistados e considerada nutritiva por outros 58%.

 

“Existe uma disrupção em curso na área de alimentos, e o Brasil pode embarcar nela como protagonista. Se a soja hoje usada para alimentar um boi na China for transformada em proteína isolada, é muito mais valorizada e tem uma oportunidade de negócio como ingrediente plant-based”, analisa Alexandre Cabral, diretor de políticas públicas do GFI Brasil.

Mas será que vale a pena para o produtor? A indústria garante que sim. “No início da empresa, em 2015, até o ano passado, não tínhamos soja. A partir de 2020, começamos a fazer um blend de proteínas. Nosso hambúrguer tem ervilha e soja não transgênica. A soja é importante, pois contribui tanto no sabor quanto nos custos”, afirma Anderson Rodrigues, diretor executivo e um dos fundadores da Vida Veg.

 

“Grande parte da composição da The Vegetarian Butcher é proteína de soja. Usamos soja não transgênica e proveniente de áreas de não desflorestamento. Mas hoje importamos, pois o processamento acaba sendo feito fora do Brasil”, afirma Camille Lau, gerente de marketing da Unilever Food Solutions, que trouxe à marca holandesa para o país.

Essa visão vai ao encontro do cenário já mapeado em outros países importantes no mercado agrícola. Um exemplo disso é que a oleaginosa respondeu, junto com o trigo, por 70% das proteínas usadas no mercado plant-based de Europa, Canadá, EUA, Austrália e Nova Zelândia em 2019, segundo estudo do Rabobank.

 

Dilema dos transgênicos

O grande ponto, entretanto, está nas entrelinhas do discurso da indústria plant-based: a aversão a transgênicos. A pesquisa coordenada pelo GFI aponta que também há certa resistência dos consumidores. Apesar de não ser a maioria, 41% destacam que os transgênicos não são naturais e 32% não consideram esses alimentos saudáveis.

Além disso, o Ibope questionou os brasileiros sobre o conhecimento que têm a respeito dos transgênicos. A maioria (57%) declarou já ter ouvido ou lido a respeito do assunto e 41% disseram ser indiferentes a esse aspecto específico na hora de adquirir alimentos.

 

Com mais de 90% da produção de soja feita a partir de cultivares transgênicas, contudo, a produção de oleaginosa teria de passar por uma mudança no Brasil – mesmo que parcial – para atender esse mercado.

Se houver demanda e grande escala, esse movimento pode resultar até em uma mudança na distribuição de áreas. Mas é fundamental, para atender essa indústria, que o produtor se sinta confortável, em especial com garantias de liquidez
Victor Ikeda, analista sênior do Rabobank

A indústria plant-based já trabalha para oferecer essa segurança. “Se a gente tiver condições de produzir a soja localmente e processá-la aqui, vamos fazer. Precisamos de soja de boa qualidade e sustentável. No momento, ela é a proteína mais antiga, estudada e de melhor performance. Não há interesse em buscar outra”, ressalta Camille.

Rodrigues, da Vida Veg, vê potencial para a parceria com o sojicultor aumentar cada vez mais. “A gente só usa soja não transgênica porque sabe que tem muito questionamento do consumidor. Mas vejo o produtor de soja como parceiro neste processo. E ele pode destinar parte da sua área para cultivar soja não transgênica à indústria de origem vegetal”, pondera.

 

Apesar de haver certa desconfiança e desconhecimento entre os consumidores, há indicativos de que a resistência vem caindo. “Esses mitos foram sendo desfeitos à medida que fomos explicando qual gene é introduzido e quais as características adicionadas aos transgênicos. Com isso, fomos tendo uma aceitação maior, mas ainda existe um trabalho a ser feito”, destaca Adriana Brondani, consultora de comunicação científica da Crop Life Brasil.

A entidade, que reúne empresas da área de genética e defesa vegetal, realizou duas pesquisas que apontam um aumento do conhecimento da população sobre o assunto em 15 anos. Se em 2001 66% dos entrevistados souberam afirmar corretamente o que é um alimento transgênico, em 2016 esse percentual já era de 80%.

 

Qualidade e sustentabilidade

Transgênica ou não, há outros desafios para a soja decorrentes da pressão que vem do consumidor. Na avaliação do pesquisador da Embrapa e membro-fundador do Comitê Estratégico da Soja (Cesb), Décio Gazzoni, a preocupação com a qualidade dos alimentos cresceu desde o começo da pandemia de Covid-19, e a tendência é aumentar a procura por variedades de soja destinadas hoje, principalmente, ao mercado de produtos orgânicos.

“A partir do momento que tivermos crescimento da renda per capita, tudo isso vai se potencializar. E, com isso, podemos ter, realmente, um aumento no volume, seja da produção orgânica como um todo, seja de soja convencional”, afirma o pesquisador.

 

Gazzoni destaca, contudo, que esse avanço mundial da demanda por soja exigirá também que o consumidor esteja preparado para pagar mais pela soja não transgênica, cujos preços atualmente chegam a ser 8% acima do praticado no mercado internacional.

“O que o produtor alega é que tem um custo maior para produzir a soja convencional e, na cadeia de distribuição, um custo de segregação, porque esse grão não pode passar pelos mesmos equipamentos e implementos usados na soja transgênica”, explica o pesquisador.

 

Diante desse cenário, Adriana Brondani, da Crop Life Brasil, questiona a viabilidade de uma produção plant-based em larga escala sem transgenia. 

“Uma carne que é produzida a partir de soja vai exigir uma quantidade grande de grãos. Então, do ponto de vista de viabilidade, me questiono o quanto será viável esse modelo”, afirma a pesquisadora, que defende o trabalho de conscientização sobre a segurança e, principalmente, dos benefícios relacionados ao consumo de transgênicos. 

Hoje, se falássemos para as pessoas de uma soja que tem maior teor de ácido oleico, um arroz rico em betacaroteno, acho que o consumidor teria uma proximidade maior e uma percepção mais positiva sobre eles
Adriana Brondani, consultora de comunicação científica da Crop Life Brasil

 

 

Gerente de desenvolvimento comercial da rede de supermercados Pão de Açúcar, André Artin Machado destaca que, transgênica ou não, a soja para alimentação humana precisa atender aos anseios do consumidor acima de tudo.

“Não adianta produzir soja com problema ambiental, por exemplo. Nesse sentido, vejo o mercado de certificação da cadeia crescendo, pois temos capacidade para produzir uma soja não transgênica e incorporá-la nos alimentos”, afirma.

 

Para Ricardo Laurino, presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), a redução no consumo de carne e a busca por alimentos saudáveis e sustentáveis, como reforça a pesquisa coordenada pelo GFI, são uma etapa de ressignificação para o agronegócio.

“O produtor precisa ter uma visão macro, pois não é que aproveitar o que já produz, mas repensar o negócio, apostar em maior diversificação de cultura e ter uma integração maior com o meio ambiente. É necessária uma visão de produzir comida, não produzir dinheiro”, conclui.