De olho em carne de qualidade, fazendas viram laboratórios de pesquisa sobre pecuária

Puros e misturados (Foto: Divulgação)

 

*Publicado originalmente na edição 421 de Globo Rural (Novembro/2020)

Raças como a brasileiríssima boi tropical, criada e aprimorada sob o inclemente sol nordestino, e a ultrablack, norte-americana selecionada por aqui em Estados sulinos como o Rio Grande do Sul, de clima mais frio, ocupam espaço crescente nas fazendas de pecuária.

É que o Brasil, maior exportador mundial de carne bovina, precisa aumentar o volume da produção, investir na qualidade e suprir o seu mercado interno, hoje exigente em maciez e sabor.

Como a criação e a engorda do gado ocorrem em biomas de temperatura e topografia diferentes, o que torna os manejos desiguais, as novas raças, sejam puras ou resultantes de cruzamentos industriais, são adaptadas às pastagens fartas ou à falta de capim; ao morro ou à planície.

 

Em Mato Grosso, que concentra o maior rebanho bovino do país e é o que mais produz carne, o campo é fértil de experiências de cruza entre raças zebuínas rústicas e fortes, como a nelore, e as produtoras de carne premium, caso da angus e de várias outras de berço europeu.

“Buscar alternativas é necessário e as experiências brotam em grande número e velocidade”, afirma Geraldo Magela Cortez Carvalho, pesquisador da Embrapa Meio Norte, de Teresina, no Piauí, e curador do projeto do boi tropical, um produto nascido do cruzamento entre touros da raça curraleiro-pé-duro com vacas nelore.

Em 2019, o boi tropical, que agrega a capacidade de produzir carne do nelore com a resistência ao calor e à escassez de água do valente bovino do sertão, o curraleiro-pé-duro, foi reconhecido como raça pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), coroando o esforço da Embrapa e de criadores envolvidos no projeto.

 

 

Geraldo Magela lembra que o boi tropical é forjado também por meio da cruza do curraleiro com outras raças como senepol e angus – estas europeias. Ele diz que a mistura depende das necessidades do pecuarista.

“O trabalho teve êxito. Hoje, pelo menos 200 produtores, de Santa Catarina ao Pará, estão produzindo com o boi tropical”, diz. Ele destaca a forte expansão da raça na região de Balsas, no Maranhão, onde ela foi lançada, em 2018, e atualmente são feitos estudos e adaptações na Fazenda Santa Luzia, com 300 cabeças.

Os criadores de raças europeias, como simental, angus e devon, entre outras, fazem cruzamento e produzem tipos mais resistentes ao ambiente tropical e às doenças no Brasil. A simental, por exemplo, deu origem ao simental brasileiro, reunindo todas as linhagens da raça que vieram para o Brasil há décadas, entre elas a suíça, uma das primeiras a dar entrada e que foi trazida por criadores do Espírito Santo.

 

No caso do simental brasileiro, os sangues suíço e alemão o tornaram funcional e dono de uma carcaça robusta. A dupla aptidão (corte e leite) foi decisiva para a expansão do tipo brasileiro. Alan Fraga observa que a eficiência acumulada nos últimos anos é fundamental. “No caso do simental brasileiro, consegue-se abater animal a campo com 20 meses de idade.”

No Paraná, a pecuária teve o reconhecimento recente de uma raça genuína do Estado, a purunã. Ela resulta de cruzamentos envolvendo as raças caracu, canchim, charolês e angus. As duas primeiras transmitem rusticidade e tolerância ao calor; a terceira contribui com velocidade de ganho de peso; e a angus com a carne nobre. É um exemplo de mistura de sangue, experiência e história.

“Uma verdadeira revolução acontece no Brasil. Em poucos anos, os vários cruzamentos feitos nas fazendas permitiram a produção de animais funcionais e adaptados às condições diferentes de clima e também aceleraram a qualidade da carne”, explica Alan Fraga, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Simental e Simbrasil. As múltiplas realidades do país foram contempladas.

 

Um pecuarista do interior paulista que seleciona angus há 17 anos aderiu também ao ultrablack, cujo primeiro registro foi autorizado pelo Ministério da Agricultura. A raça tem se expandido, graças ao seu pelo curto, e resulta do cruzamento entre a angus e zebuínos como brahman, nelore mocho e guzerá.

Renato Ramirez Júnior, o pecuarista, está satisfeito. Ele informa que o ultrablack é um gado composto de uma mistura de 80%de sangue angus. “Umdiferencial, o que faz da sua carne um produto gourmet”, diz. E os restantes 20% tornam o ultrablack resistente ao carrapato e às rudezas do ambiente tropical, observa.

 

 

Ramires é o CEO da Fazenda 3E, de José Bonifácio (SP). O rebanho de ultrablack é de 70 cabeças, entre matrizes e touros, e a bezerrada nasce de fertilização in vitro (FIV). “A procura por touro é imensa. Nasceu, o comprador já está esperando.”

Especialistas no estudo de raças bovinas ressaltam que a ultrablack reúne condições de adaptação ao clima árido do Centro-Oeste por possuir uma  porcentagem de sangue zebuíno.

Características marcantes

Ultrablack
Sabor da carne (80% sangue angus), maior resistência (20% de sangue zebu), não tem chifre, reproduz por monta natural sob clima quente, serve para fazer o tricross e o touro serve para repasse.

Boi tropical
Adaptação ao calor, alimentação de pastagens nativas, resistência a parasitas, suporta estiagem brava, bom rendimento de carcaça e tem carne macia