Governo defende transparência e diálogo para definir regras ao mercado plant-based no Brasil

Workshop Mapa sobre mercado plant-based (Foto: Reprodução)

 

No primeiro debate público sobre a regulamentação do mercado plant-based no Brasil, nesta terça-feira (8/12), o Ministério da Agricultura defendeu diálogo e transparência na definição das regras para o setor, que cresce de forma exponencial e já exporta para 10 países.

O workshop, organizado pela pasta com apoio da Embrapa, reiterou a mudança de comportamento dos consumidores medida por pesquisa lançada nesta semana, segundo a qual metade dos brasileiros reduziram o consumo de carne nos últimos 12 meses.

Apesar de divergências quanto à nomenclatura ideal aos produtos feito de plantas, houve consenso de que o setor está em ascensão no Brasil e ênfase no potencial de o país se tornar protagonista mundial no mercado por ser um grande produtor de alimentos.

 

“Precisamos ter uma regulação que possa trazer definições e regras de maneira clara e transparante para não ficar à mercê de decisões judiciais. E isso passa por termos a maturidade para definir essas regras”, afirmou Glauco Bertoldo, diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal do Ministério da Agricultura.

Segundo ele, o assunto ainda está em fase inicial de discussão. Por isso, a preocupação com fiscalização ficará para mais adiante. “Vamos conversar com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e outros órgãos para decidir a partir do que está previsto na lei e for melhor para o país. Vamos fazer um ambiente saudável normativo regulatório para que empresas possam se desenvolver e o consumidor possa estar tranquilo”, prometeu.

 

 

Diretor de assuntos regulatórios e científicos da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), Alexandre Novachi destacou o aumento de 40% nos lançamentos de produtos plant-based no mundo entre 2015 e 2019 – de 1.077 para 1.518 – e a liderana do Brasil na América Latina, com 175 lançamentos nos últimos cinco anos, muito à frente de Argentina (106), México (66), Colômbis (35) e Peru (23).

“No Brasil, o crescimento da oferta de produtos plant-based cresceu 150% em um ano. Mais da metade dos brasileiros (55%) já provou as alternativas vegetais. E estima-se que o interesse por esses produtos pode triplicar a cada ano no Brasil”, apontou Novachi, que também detalhou como está o debate sobre marco regulatório em outros países.

Recomendamos que haja diálogo e o foco principal seja o consumidor, mas trazendo para o debate ciência, mercado e outros atores para que a regulamentação seja a melhor possível e crie oportunidades, não barreiras
Alexandre Novachi, diretor de assuntos regulatórios e científicos da Abia

Pesquisadora da Embrapa Agroindústria de Alimentos, Caroline Mellinger reiterou que esse avanço traz à tona a necessidade de uma padronização de conceitos, com foco em qualidade e identidade dos novos produtos.

“A ISO internacional vem trabalhando desde o ano passado na construção de um documento que vai trazer definições e critérios técnicos, com a participação de 80 países e pode ser publicado ainda neste ano”, revelou.

Gustavo Guadagnini, diretor executivo do The Good Food Institute (GFI) no Brasil, ressaltou a importância deste movimento internacional em prol de marcos regulatórios. Também enfatizou que este novo mercado não vem para substituir o de produtos de origem animal. “Já somos fortes na produção de origem animal e também seremos no plant-based”, frisou.

 

Apesar de enfatizar a importância da regulamentação e da fiscalização, Igor Castro, diretor técnico da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas (Abir), ressaltou que a entidade é contra chamar de leite, por exemplo, uma bebida vegetal similar – com exceção do leite de coco.

“Formamos um grupo de trabalho para estudar essa categoria de bebidas à base de plantas e somos contra o uso do mesmo nome”, afirmou. Guadagnini discordou e defendeu que o foco seja em padrões de identidade e qualidade em vez de nomenclatura. 

“Imagina você criar um nome novo para cada produto de origem animal? Salsicha, linguiça, queijo, tudo teria um nome diferente. Lançaríamos 300 nomes no mercado e não iríamos facilitar para o consuimdor”, ponderou.

 

Castro reiterou que as características nutricionais dos produtos feito de plantas são distintas entre si e defendeu a padronização para trazer segurança ao consumidor. “Mas está claro que este é um mercado muito emergente”, destacou, sugerindo que a regulação contemple bebidas já existentes no mercado e não defina percentual mínimo de matéria-prima vegetal.

Diretor de políticas públicas do GFI Brasil, Alexandre Cabral pontou que o marco regulatório seja construído por “muitas mãos” e inclua produtos biotecnologicamente híbridos. “Ele deve ser pró-investimento e pró-tecnologia. A competitividade deve ser definida por fatores tecnológicos e econômicos, não pelo regulatório”, enfatizou.

 

Pesquisa

O investimento em pesquisa para melhorar a qualidade e garimpar novos ingredientes também foi debatido no workshop. Bruno Brasil, chefe da Secretaria de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, afirmou que a estatal investe R$ 3,376 milhões em seis projetos para viabilizar a produção de alimentos de origem vegetal com características sensoriais e nutricionais equivalentes aos derivados de proteína animal.

Segundo ele, há 42 pesquisadores e analistas envolvidos e sete instituições parceiras nesta iniciativa. “O setor plant-based deixou de ser um nicho para entrar em outros segmentos de consumo, com flexitarianos buscando diversificação e balanceamento de dieta”, ressaltou.

 

Eloísa Garcia, diretora do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), destacou o centro de inovação em proteína vegetal do órgao e o foco em encontrar novos ingredientes a partir de fontes vegetais, com ênfase em matérias-primas braslieiras.

Não acreditamos que proteína animal vai acabar, mas detectamos que há uma necessidade de pesquisa para consolidar e fortalecer esse segmento de proteína vegetal. Muitos ingredientes hoje são importados, e o Brasil tem condições de liderar essa área no mundo
Eloísa Garcia, diretora do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital)

Para Raquel Casselli, gerente de engajamento corporativo do GFI Brasil, a pesquisa é parte importante do elo que também abrange o produtor rural, que será responsável por garantir o abatecimento da indústria. “Temos trabalhado para incluir o produtor para que ele possa ser um fornecedor para o mercado de proteínas vegetais”, afirmou.