Mulheres discutem gestão de risco e sucessão nos negócios

painel-sucessao-mulheres (Foto: Divulgação/5CNMA)

 

Temas dos mais delicados e essenciais para o agronegócio, gestão de riscos e sucessão de negócios foram debatidos nesta quarta-feira (28/10), terceiro dia do Congresso Nacional de Mulheres do Agronegócio 2020. Para reduzir os riscos inerentes à uma atividade tão sensível a fatores imprevisíveis – como clima, novas pragas e mercado -, ter um planejamento é tão fundamental que deve ser considerado também no processo sucessório das empresas.

“Controles de riscos são essenciais para qualquer negócio. É importantíssimo saber que existem controles, proteções e outros que funcionam como uma segurança”, destacou Ellen Steter, gerente de estratégia no Ágora Investimentos.

De acordo com ela, os mercados de commodities hoje já são suficientemente maduros no Brasil e em outras partes do mundo. Através de corretoras de valores, pode ser feita uma gestão de risco eficiente. “São muitas as opções e cada caso é um caso, mas o objetivo é não generalizar. Procure o seu consultor e faça, porque você já tem muita coisa para controlar. Deixa essa parte de gestão financeira segura, não assuma mais um risco”, ressaltou, recomendando a procura por um especialista no assunto.

 

“Essa decisão de risco, se eu fecho a soja hoje no preço em que está, é muito complexa”, comentou a diretora de recursos humanos da UPL Brasil, Maria da Conceição Guimarães. Ela apontou para a necessidade de capacitação das mulheres para tomar decisões mais seguras, com o mínimo de erros. “É preciso conhecer bem os fatos e dados. A gente pode errar, mas você não toma decisão com bases em percepção. O sexto sentido sozinho não vai te levar em nada seguro nesses negócios”, completou.

De acordo com Pollyana Saraiva, Head do Rural Banking do Rabobank Brasil que atende os produtores rurais, mais de 90% dos clientes, quando questionados se gostavam de correr riscos, disseram que não. “É incrível isso, porque o agronegócio é uma indústria a céu aberto. E a gente percebe também que, no modo operantes dos nossos clientes, mais de 70% deles deixam a sua comercialização exposta, sem fazer algum tipo de proteção. É contraditória a percepção de tomada de risco com a ação de gestão de risco”, exemplifica.

A executiva explica que ainda é muito recorrente a busca pelo melhor preço ao invés da conta da margem operacional ao longo da ação, que é uma visão a longo prazo. No caso do melhor preço é uma visão a curto prazo. “Gestão de risco tem a ver com planejamento, controle e atitude”, ressaltou.

Segundo Pollyana, dentre os clientes do banco, produtores com uma política de comercialização bem estruturada conseguem ter uma rentabilidade em torno de 2% a 5% maior do que os produtores que ficaram expostos, além de terem negócios mais sustentáveis ao longo do tempo.

Fatores de mercado

A diretora de Commodities da Bolsa de Chicago (EUA), Susan Sutherland, explicou que este é um mercado que não se pode controlar. A chegada da pandemia aqueceu importações e exportações de commodities e trouxe questões sobre a demanda. Com a China comprando tudo o que podia de soja e outros produtos agrícolas dos Estados Unidos, o que provocou uma redução nos estoques e alta dos preços, e fatores como La Niña na América do Sul, trazendo um clima mais seco e favorável para a safra de soja no Brasil e na Argentina, criaram uma atmosfera de incertezas sobre o mercado.

Segundo Sutherland, os produtores brasileiros não estão mais vendendo a safra de 2021 até o final do plantio, quando a produção parecer mais garantida. Embora não possa prever preços, ela acredita que ainda vão continuar sendo interessantes até o final deste ano.

 

“Na verdade, minha função é ver onde estamos em termos de demanda e certeza com relação à produção no Brasil e Argentina em 2021, e parece que vamos ver uma certa volatilidade, o que vai depender da China, se eles vão comprar uma quantidade agora, que é o que parece que eles vão fazer. Eu diria que vai continuar sendo muito interessante no setor agrícola em termos de preço”, avalia.

Para Marcelo Prado, da MPrado Consultoria, a gestão é o principal gargalo do agronegócio brasileiro. “Nós vivemos um mundo de incertezas nesse momento, que são incertezas políticas, mercadológicas, econômicas. Quando jogamos tudo dentro de um único balaio, a gente tem uma exigência profissional muito grande”, ressaltou.

Um estudo realizado pela consultoria concluiu que apenas 20% dos grandes agricultores possuem excelência em gestão e apenas 5% dos pequenos e médios atingem esse nível. “Há um espaço muito longo para se alcançar esse nível de excelência. Isso é como uma caixa d’água com vazamento: há muito desperdício. No caso do negócio agrícola, são recursos que são gerados e muitas vezes são desperdiçadas por ineficiência de gestão”, afirmou.

Sucessão

O levantamento da MPrado mostrou também que 20% dos empresários do agronegócio pretendem se aposentar aos 70 anos; 10% com 80 anos e 70% disseram que nunca pretendem se aposentar. “A sucessão precisa ser planejada, observar os filhos, noras, cunhados, da família que tem o perfil adequado. Deve haver planejamento e antecedência e não pode se colocar o coração, e sim o cérebro e a razão. E se na família não houver uma pessoa adequada para exercer a liderança, é preciso buscar isso no mercado”, comentou Marcelo Prado.

A gerente da Ágora Investimentos reforça que a profissionalização, e não os laços familiares, é um pilar para a continuidade do sucesso das empresas. “Sucessão é sempre um ponto muito delicado e você precisa abrir seus horizontes para, eventualmente, trazer a profissionalização para a sua empresa. Talvez o ambiente familiar não sirva mais para o seu negócio e isso não tem problema”, salientou Ellen Steter.

Nesse sentido, o papel da mulher nos processos sucessórios das empresas do agronegócio está sendo cada vez mais importante no sentido de transformação e agregação de inovações. Segundo Pollyana Saraiva, é inevitável que se acomodem os vários perfis e mais diversidade nos processos sucessórios.

 

“Membros da família, que são homens e mulheres, precisam se organizar nos espaços profissionais dentro das empresas, que antes para elas eram em cargos menores e agora esses espaços são maiores. Essa transformação está acontecendo pela necessidade de outros tipos de trabalho e profissões. O espaço para a mulher nesses vetores que vão fazer parte dessa gestão é ímpar, e os sucessores vão ter que abordar essas tendências nos seus modelos de gestão”, disse Saraiva.

Nos Estados Unidos, segundo Susan Sutherland, da Bolsa de Chicago, ainda é um desafio embora pareça que os produtores tenham feito um trabalho melhor na última geração em termos de planejamento de sucessão. “No decorrer do tempo, as gerações seguintes se tornaram mais conhecedoras do mercado, mas eles não foram educados para gerenciar o risco. Então, quando se faz o planejamento da sucessão, a próxima geração deverá ter mais treinamento e habilidade para gerenciar o risco”, avalia Sutherland.

“Para a sucessão, você não deve buscar a emoção. Busque ajuda profissional e defina a sucessão através de competência. Que competências você precisa para alguém continuar o que você construiu, e muitas vezes, infelizmente, a sucessão pode vir de alguém de fora”, sugeriu Maria da Conceição, da UPL.  “Mas, se for de dentro, você tem que buscar o respeito de quem chegou até aqui e de quem está entrando agora, que vai trazer mais inovação e coisas de maior risco e também tem que respeitar isso”, completou.