Pantanal registra focos de incêndio e falta d’água põe combate em risco

Atolado na lama, o jacaré não se mexe mais. Sinal de que faltou água para sobreviver. O período de seca mal começou no Pantanal e a falta d’água combinada com os focos de incêndio já são o pesadelo da população local, que, no ano passado, viu 26% do bioma pegar fogo, além da perda da biodiversidade.

Nas redes sociais, o guia turístico Ailton Lara divulga a foto do animal tirada na segunda-feira (5/7) como um alerta para o que está por vir. “Algo que não queríamos ver novamente já está se repetindo. Olhe isso, nem estamos em agosto ou setembro”, escreve na legenda da publicação.

Foto mostra jacaré morto na região da Estrada Transpantaneira, no Mato Grosso (Foto: Ailton Lara/Acervo pessoal)

 

Sem água, a dúvida que fica é como será o combate aos incêndios nos próximos meses, já que, mesmo no período proibitivo das queimadas, estão acontecendo. É o que mostram os dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Foram 464 focos de calor registrados ao longo deste ano, 20% entre 28 de junho e 4 de julho.

 

Conhecido por uma atuação relevante no combate ao fogo, o SESC Pantanal viu 94% de sua Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) queimar no ano passado. Ao todo, a RPPN tem 107.996 hectares, a maior reserva particular do Brasil.

Christiane Caetano, superintendente da unidade, lembra de sobrevoar a região e avistar labaredas de 30 metros de altura. Mesmo com o treinamento de cerca de 40 brigadistas, feito pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e uma injeção de dinheiro considerável, o sentimento foi de impotência.

“Se o fogo for como no ano passado, talvez o maior incidente seja a falta d’água. Falta água para tudo, consumo, animais, combate ao fogo. Esse ano, o Pantanal não inundou. Água como refúgio para os animais, para escaparem do calor e fumaça, não vai ter”, ela projeta.

Se o fogo for como no ano passado, talvez o maior incidente seja a falta d’água
Christiane Caetano, superintendente do SESC Pantanal
Reviver o passado

Nem deu tempo de se recuperar do trauma e o fazendeiro Francisco Campos, que viu 70% de sua propriedade, em Porto Cercado, queimar no ano passado, já relata incêndios na região novamente. De acordo com ele, há muita matéria orgânica, como palhada e madeira, espalhada pelos campos e que “serve de combustível para o fogo”.

 

Imagem da fazenda São Francisco da Baía das Pedras, no Pantanal, após queimadas em 2020 (Foto: Francisco Campos/Acervo pessoal)

 

“De dois anos para cá, não tem mais alagamento no campo. Está tudo sujo do fogo do ano passado. Esse ano choveu 30% do esperado, foi garoa. O que sobrou é erva invasora, que tomou conta das pastagens”, ele conta.

O reflexo foi o pior possível: vender 300 das cerca de 500 cabeças de gado que tinha. A falta d’água foi fator decisivo na hora de abrir mão dos animais. Não tem água para hidratar o gado nem para crescer a pastagem.

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Ao olhar para o campo hoje, depois de ficar três dias consecutivos apagando incêndio, em julho de 2020, Campos é categórico: “O fogo é a pior coisa que existe. O povo diz que é a gente que põe fogo, mas ele é nosso maior inimigo. A maioria do fogo sai da beira da estrada”, diz.

Biodiversidade

A nova temporada de queimadas também deve evidenciar a perda de biodiversidade, sentida na pele pelo pantaneiro. “Depois do ano passado, acabou bicho, pássaro cantando não tem mais”, ele lamenta.

Chamado de floresta silenciosa, o fenômeno descreve bem o Pantanal. A capacidade de se regenerar existe, mas a vida, principalmente de organismos pequenos, está em desequilíbrio. É o que explica José Luiz Cordeiro, pesquisador e coordenador do  Grupo de Estudos em Vida Silvestre (GEVS) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Ele conta que, depois do fogo, um trabalho com pesquisadores voluntários mapeou 51 espécies de grande porte vivas, mas medir tudo com exatidão é muito difícil. “É possível perceber que a fauna está muda. E mesmo os animais que ainda estão vivos, talvez exista um agravamento do sistema pulmonar por conta da fumaça dos incêndios”, ele observa.

Para que isso não piore, brigadas de incêndio estão sendo organizadas e estrategicamente calculadas, formando uma rede de apoio, caso o fogo tome grandes proporções. Segundo levantamento do Observatório do Pantanal, há 71 brigadas, sendo 23 são do Corpo de Bombeiros Militar; 7 do Prevfogo/Ibama; 5 nas Unidades de Conservação, vinculadas ao ICMBIO; 19 particulares e 17 comunitárias.

Já o mapeamento do  Instituto Centro de Vida (ICV) contabiliza, apenas em Mato Grosso, 89 brigadas de combate e prevenção aos incêndios florestais.