Porquinho da índia, calopsita. O que é preciso prestar atenção para ser um tutor de espécies como essas

Durante muito tempo, quando se falava em animais de estimação, cães e gatos eram as primeiras opções. E ainda são comuns. Dados de 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que 46,1% dos domicílios (33,8 milhões) têm, pelo menos, um cachorro e 19,3% (14,1 milhões) um gato. Mas vem aumentando a presença de espécies consideradas exóticas ou silvestres nos lares do país, o que tem trazido mudanças no mercado veterinário e a necessidade de maior atenção com as normas de criação e de cuidados com essas espécies de animais.

como criar - porquinho-da-índia (Foto: Pixabay)

 

Segundo o “Censo Pet 2020”, do Instituto Pet Brasil (IPB), a população de animais de estimação no país é de aproximadamente 144,3 milhões: 40,4 milhões (28%) incluem aves ornamentais e 2,5 milhões (1,7%) são pequenos mamíferos e répteis. Entre os classificados como silvestres ou exóticos, alguns dos mais comuns são calopsita, entre as aves; além de pequenos roedores, como porquinho-da-índia e hamsters.

Animais classificados como silvestres são aqueles que fazem parte dos ecossistemas e biomas brasileiros. Como vivem em ambiente natural, são chamados de selvagens. Os exóticos também. A diferença para os silvestres, no entanto, está em sua origem em outro país ou continente. Esses animais são trazidos para o país por meio de acordos ou regulamentos específicos.

De acordo com o IPB, o interesse por animais de companhia tem sido maior, de uma forma geral. Mas tem havido uma predileção por esses animais, o que estaria ligado a fatores como uma maior independência e a capacidade de permanecer por períodos mais longos sem a presença do cuidador.

 

 

Mariana Murakoshi Pestelli, médica-veterinária especializada em animais silvestres do Centro Veterinário Seres – Petz, associa o crescimento na demanda por animais silvestres às mudanças na sociedade atual. A consolidação da mulher no mercado de trabalho, longas jornadas, além das pessoas morarem em locais menores são alguns dos fatores.

“Animais exóticos e silvestres, principalmente répteis e roedores, são menores, mais fáceis de cuidar e demandam menos tempo que cães e gatos. Acabou sendo uma estratégia interessante para que uma parte da população conseguisse ter um animal de estimação”, afirma.

O presidente da Comissão Nacional de Animais Selvagens do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CNAS/CFMV), Francisco Edson Gomes, avalia que a criação desses animais em cativeiro ajuda na preservação dessas espécies, além de reduzir a pressão de caça. Entretanto, é preciso ter cuidados na manutenção desse espécime em residência, pois é importante oferecer um ambiente saudável, no qual o animal possa estar bem e expressar seu comportamento natural.

 

Gomes destaca que cada espécie tem necessidades de cuidado e ambiente, que, se não forem atendidas, podem levar ao sofrimento. Podem ocorrer também situações de incompatibilidade, por falta de informação ou falhas no manejo. Daí vem a maior procura por veterinários aptos a lidar com pets não-convencionais, que, segundo ele, tem refletido em programas de graduação e pós-graduação em Medicina Veterinária e Zootecnia.

“Considerando a procura crescente por de animais silvestres e exóticos como pets, o mercado veterinário tem buscado a adequação a esse nicho, no que concerne melhorar os conhecimentos dessas espécies no tocante às técnicas de manejo alimentar, comportamento, desenvolvimento de produtos e aprimoramento de procedimentos clínicos”, diz Gomes.

Não só a academia, mas o mercado de produtos para animais de companhia vem acompanhando esse movimento em direção aos pets não-convencionais. Mariana Murakoshi Pestelli, da Petz, afirma que, além de aumentar o espaço de atuação para profissionais aptos, os produtos e serviços para essas espécies cresceram.

 

“Há 10 ou 15 anos, era bastante raro encontrarmos nas lojas produtos, acessórios e alimentos específicos para esses animais. Os poucos tutores que os tinham acabavam dando uma alimentação caseira com base em sementes, porém, esses animais, assim como gatos e cachorros, precisam de uma alimentação balanceada”, pontua.

Hoje, explica a veterinária, as gôndolas dos pet-shops têm ração de qualidade específica, além de assessórios para criar o ambiente para esses animais dentro do espaço doméstico, embora o país ainda dependa de produtos importados, especialmente para répteis, cuja demanda é menor por serem pouco permitidos pela legislação do país.

 

 

 

Riscos e normas

Dados de 2015 a 2018, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), revelam que as espécies consideradas silvestres ou exóticas representaram 23% do comércio de animais de estimação no país. No período, foram realizadas 101,927 mil vendas no país: 55,9% aves, 42,8% répteis e 2,1% mamíferos, informa o “Diagnóstico da criação comercial de animais silvestres no Brasil”.

Adquirir esse tipo de animal tem riscos e implica no cumprimento de uma série de normas previstas na legislação brasileira. A Lei de Proteção à Fauna (Lei nº 5.197/1967), por exemplo, prevê o comércio de animais silvestres, desde que tenham origem em criadores legalizados. E a comercialização depende do parecer técnico de órgãos ambientais, como o Ibama, já que a inserção de um espécime não nativo no ambiente pode trazer riscos à fauna e à flora.

“Pode trazer problemas sanitários, ambientais e econômicos com prejuízos inestimáveis”, ressalta Francisco Edson Gomes, do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV). Não cumprir normas de criação, reprodução e comercialização desses animais pode gerar também punições com base na Lei de Crimes Ambientais.

 

Gomes acredita que a tendência é de crescimento dessa nova demanda por animais de estimação. Diante disso, ele vê a necessidade de normatizações com o objetivo de melhorar as regras de conservação e manejo desses animais, o que tende a ser feito de modo lento e cauteloso.

O presidente da Comissão Nacional de Animais Selvagens do Conselho Federal de Medicina Veterinária afirma ainda que as autoridades devem fiscalizar cada etapa desse processo, para evitar ações como o tráfico e o comércio ilegal.

E, a quem deseja ter um animal diferente como pet, é importante se informar sobre o local de onde está adquirindo o animal. E considerar, no momento da escolha, fatores como orçamento e espaço físico, além de levar em conta o próprio estilo de vida.

*edição, Raphael Salomão

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