Queda no consumo de carne bovina fez indústria amargar prejuízo no fim de 2020

carne (Foto: Roberto Seba/Ed. Globo)

 

Os altos e baixos da arroba bovina entre novembro e dezembro, passando de um recorde nominal de R$ 292 para uma queda de 12,5% em dezembro, quando o indicador Cepea/B3 chegou a bater R$ 255,30, impactou de forma significativa o caixa de frigoríficos cuja operação está concentrada no mercado interno.

Segundo o presidente do Sindicato das Indústrias de Frigoríficos do Estado de Mato Grosso (Sindifrigo-MT), Paulo Bellicanta, o desaquecimento do consumo no final do ano gerou um efeito cascata, quando os preços de venda ao consumidor ficaram abaixo do custo de originação da carcaça bovina.

 

“Os abates aumentaram, a carne ofertada ao mercado aumentou e, consequentemente, ficou muita carne sem ser vendida. Essa carne começa a perder valor por data de validade e isso deu uma puxada pra baixo muito significativa. Perdemos metade do que tínhamos ganho na alta”, explica Bellicanta.

Ele observa que a desvalorização da carne nas gôndolas foi um dos fatores para a queda do preço do boi em dezembro. Segundo ele, a previsão de fim do auxílio emergencial em meio à retomada da alta da arroba bovina nas últimas semanas tem gerado um clima de “medo” entre frigoríficos e pecuaristas, dado o risco de o cenário se repetir nos próximos meses.

 

“Os preços se recuperaram, estamos de volta no ponto em que havia dado o colapso de consumo e as interrogações estão abertas. Então, a indústria, com esses patamares pela frente, fica com medo de comprar, ter um produto caro pra vender e não ter quem o compre amanhã”, observa o presidente do Sindifrigo-MT.

Desde o início de 2021, a arroba bovina acumula valorização de 11,4%, cotada a R$ 298 segundo o indicador Cepea/B3 e superando os recordes observados no final do ano passado. Conforme o analista da Scot Consultoria, Hyberville Neto, o mercado passa tanto por uma retração do consumo quanto na oferta de animais, resultado do ciclo de alta da pecuária.

 

 

Com isso, os preços da arroba têm subido mesmo com a demanda interna mais fraca. “Apesar de ser um momento de demanda mais lenta, a oferta de boiadas está muito curta e isso tem sido o grande possibilitador para a valorização do boi gordo. Mas é um momento de oferta limitada e de escoamento mais curto de carne bovina”, aponta Neto, ao destacar que, sazonalmente, já é esperada uma queda no consumo interno de carne bovina neste momento do ano.

“Os preços daquela época, assim como os atuais, são preços que representam, na gôndola, um valor significativamente mais alto do que o brasileiro está acostumado a pagar. Então, as luzes estavam acesas”, reconhece Bellicanta ao destacar que o contexto atual é ainda pior que o final de 2020.

 

“Se você analisar, é até o contexto inverso. Porque você tinha as expectativas de final de ano, quando o consumo tradicionalmente melhora, e este ano realmente não foi. Ele foi invertido. Agora, seria bom que isso se invertesse de novo, mas há poucos indícios de que você possa ter uma retomada de consumo mais significativa, pelo menos neste momento”, conclui o representante da indústria mato-grossense.

Maior produtor de carne bovina do país, o Mato Grosso atingiu em dezembro a menor utilização da sua capacidade instalada desde 2010, com 62,8% de uso, segundo acompanhamento realizado pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

Com isso, os abates de bovinos no Estado recuaram 9,7% em dezembro, refletindo a menor disponibilidade de animais prontos para abate. “O que a gente espera é que, em 2021 e pelo menos até meados de 2022, vai haver uma oferta menor por conta dos abates de fêmea em 2018 e 2019. Isso é consenso”, reconhece Bellicanta.