Refugiados contam em livro suas histórias de vida e ensinam receitas típicas

liliana-gastronomia-colombia (Foto: Divulgação)

 

A culinária se tornou desde cedo meio de vida para Liliana Pataquiva. Mãe aos 16 anos, ela tinha um restaurante em Bogotá, capital da Colômbia. Mas sua vida tornou-se um pesadelo quando passou a sofrer ameaças que, segundo ela, vinham de pessoas ligadas a narcotraficantes. Era obrigada a pagar propinas cada vez maiores para manter seu negócio funcionando. Resolveu dar um basta.

“Não quisemos pagar mais. Eles entraram na minha loja e quebraram tudo, ameaçaram meu filho. Era muito medo que sentíamos”, relembra. Ajudada por um primo, conseguiu vir para o Brasil. “Não pensei duas vezes. Saímos sem nada, só com medo”, diz. O marido e os filhos vieram depois. Assim, Liliana e sua família passaram a estar entre os muitos refugiados que chegam ao país.

 

Histórias como a dela estão no livro digital Prato do Mundo, editado pela Agência da Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Além de conhecer um pouco das vidas de estrangeiros que deixaram seus países fugindo de situações de conflito, guerra, ameaças e violações de direitos humanos, a publicação traz receitas tradicionais de suas terras natais.

“Um prato típico de um país ou região guarda, dentro de si, anos de história, descobertas, valores e memórias afetivas. A culinária é, portanto, uma valiosa e deliciosa porta de entrada para outras culturas”, diz, em sua introdução, o livro, que reúne pratos da Síria, da Colômbia e da Venezuela.

 

A história de Liliana é acompanhada de uma receita de patacones, prato à base de banana da terra. O livro está disponível para download gratuito e marca os 70 anos da Agência da ONU para Refugiados. Natasha Alexander, head de parcerias com o setor privado da Acnur no Brasil, explica que as sete histórias foram selecionadas entre muitas reunidas em uma plataforma própria.

“O livro vem como uma homenagem para enaltecer a história de superação dessas pessoas que reconstroem as vidas no Brasil”, diz ela. “Há muitos mitos sobre o refúgio e nada melhor do que conhecer suas histórias de vida e sua cultura”, acrescenta.

Segundo Natasha, estão no Brasil, atualmente, refugiados de mais de 80 países. O trabalho da Acnur é ajudá-los a passar da dependência de uma estrutura assistencial para a autossuficiência. Uma das iniciativas é o apoio ao empreendedorismo. E a gastronomia tem sido opção para muitos obterem sua própria renda e se estabelecerem no país.

 

Depois de trabalhar em restaurante no Brasil, Liliana Pataquiva começou a empreender com um food bike. Em 2019, conta, adquiriu um food truck e, no ano passado viu a oportunidade de ter seu próprio estabelecimento, em São Paulo, com um cardápio baseado na cozinha tradicional colombiana.

acnur-natasha-aleksander (Foto: Acnur)

Com os negócios afetados pela pandemia de Covid-19, os aplicativos de entrega foram a opção para ser vista e vender seus produtos. “Meu projeto é ter meu restaurante funcionando, meu food truck funcionando, comprar minha casa”, diz a empresária, que trabalha junto com o marido.

Natasha Alexander, da Acnur, explica que, muitos tentam combinar a experiência nos seus países de origem com um olhar sobre o mercado local. “O empreendedorismo é uma marca muito forte deles”, pontua.

Da Síria ao Brasil

Em Damasco, capital da Síria, Omar Suleibi trabalhava no setor de vendas de medicamentos. Mas a guerra no país interrompeu sua carreira e dividiu sua família. Omar conta que uma parte está em Dubai, nos Emirados Árabes, e outra na Alemanha. Ele, a esposa e a filha vieram para o Brasil, em outubro de 2014.

“Foi complicado no início. E fica mais complicado quando se está com a família. Sozinho, você fica em qualquer lugar, mas, com a família, tem que ter tudo em ordem”, relembra ele, que chegou se conhecer ninguém nem falar português.

Omar relata que chegou a ir para Corumbá (MS), onde teve um pequeno comércio. Não conseguiu continuar e voltou à capital paulista. E a gastronomia árabe tornou-se definitivamente um meio de vida. Fez um curso de culinária e começou a atuar no ramo, fornecendo para festas e eventos.

 

Ele diz que pensava em abrir um restaurante, mas a perda de renda trazida pelo cancelamento de eventos devido à pandemia foi, em parte, compensada fornecendo marmitas para projetos que remuneram estabelecimentos gastronômicos por refeições para distribuir a pessoas em situação de vulnerabilidade. Omar continua atendendo sob encomenda, mas diz que vem recebendo menos pedidos do que antes do coronavírus.

“Gosto de fazer meus pratos do mesmo jeito que na Síria. Quando a pandemia acabar, quero visitar minha família, a família da minha esposa e, na volta, abrir um restaurante. O povo brasileiro gosta de comida árabe”, diz Omar. No livro Prato do Mundo, sua história é acompanhada de uma receita de abobrinha recheada.

A maioria das pessoas não tem a oportunidade de conhecer pessoas refugiadas. O livro dá a oportunidade de conhecer e desenvolver essa empatia para que a gente possa se abrir para essas pessoas. Temos interesse em fazer uma próxima edição, com outras nacionalidades
Natasha Alexander, head de parcerias com o setor privado da Acnur