Safra 21/22 deve ser recorde, com custos entre “os mais altos da história”, projeta CNA

Por um lado, uma safra recorde, com 289 milhões de toneladas no ciclo 2021/2022, 14% maior. Por outro, um custo de produção dos mais altos da história devido ao aumento de preços dos insumos, que passa de 100% e deve continuar. Esse é o cenário que a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) projeta para 2022, segundo apresentação feita em entrevista coletiva, nesta quarta (8/12). Sobre as exportações, no entanto, a entidade não fez previsões.

O presidente da CNA, João Martins, destacou que houve uma certa frustração neste ano causada pelo clima, tanto com o volume de produção de grãos projetado – que era de 270 milhões, mas ficou por volta de 250 milhões de toneladas – quanto com o volume exportado. Embora em receita, o país já tenha batido o recorde estabelecido em 2018, com US$ 110,7 bilhões ante US$ 101,2 bilhões. Na comparação com o mesmo período de 2020, o aumento foi de 18,4%. Já no volume, a queda é de 6,5%.

agricultura_soja_matopiba (Foto: Editora Globo)

 

Os representantes da CNA destacaram também, durante a apresentação, o embargo da China à carne bovina do Brasil, que já dura mais de três meses. Para o presidente da entidade, a persistência da situação é uma jogada de mercado.

“Com o embargo, a China esperava que o preço do boi caísse. Houve uma queda no primeiro mês, de quase 20%, mas, no mês seguinte, o preço subiu muito porque os Estados Unidos elevaram suas importações e o consumo subiu no mercado interno, mesmo com poder aquisitivo menor da população, já que estamos no final do ano. Ou seja, o preço está maior do que antes do embargo”, disse Martins.

 

Lígia Dutra, diretora de relações internacionais da CNA, afirmou que a entidade espera para breve a suspensão do embargo chinês, mas ressaltou que o país precisa trabalhar mais a diversificação de destinos, inclusive para a carne bovina. Embora, o país exporte produtos para mais de 190 países, a China ainda é o maior parceiro comercial do Brasil, com US$ 38,9 bilhões da receita de US$ 110,7 bilhões deste ano, seguida por União Europeia, com US$ 16,4 bilhões, Estados Unidos (US$ 8,1 bilhões), Tailândia (2,4 bilhões) e Japão (US$ 2,3 bilhões). Junto os cinco países recebem 62% das exportações do agro brasileiro, que equivale neste ano a 43% da pauta de exportações brasileiras.

“Se a China não retomar as exportações de carne bovina, o que é muito improvável, temos vários mercados se abrindo e a sinalização de volta da Rússia, que já foi um grande importador de carnes do Brasil. Mas é preciso lembrar que apenas 25% no máximo da produção brasileira de carne bovina é exportada”, acrescentou Bruno Lucchi, diretor técnico da entidade.

Segundo ele, as exportações estimulam a produção e o preço da arroba despencando não é bom para ninguém porque desestimula o produtor a investir e, como os preços vinham em baixa desde 2017, combinados com custos muito altos, a oferta ainda não atende totalmente a demanda.

Inflação e PIB

Pelos números da CNA, a inflação dos alimentos, de 8,71% neste ano, incrementada pelos custos de produção, logística e outros fatores internacionais, deve cair para 4,7% em 2022. Martins fez questão de destacar que não existe processo especulativo do produtor rural porque os custos subiram demais e quem determina os preços é o mercado. Além disso, houve aumentos inflacionários em todos os países, inclusive naqueles que mantêm índices baixos, como Estados Unidos e Alemanha.

O Produto Interno Bruto (PIB) do Agronegócio, que considera todos os elos da cadeia e é pesquisado pela CNA e o Centro de Estudos Avançados em economia Aplicada (Cepea) , deve fechar com aumento de 9,4% neste ano, mas para 2022, a estimativa é de subir menos, por volta de 5%.

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O Valor Bruto da Produção (VPB) deve ser de R$ 1,25 trilhão em 2022, uma alta de 4,2% em relação a 2021. A projeção é de aumento de produção de culturas como café, milho e trigo e de elevação dos preços de cana-de-açúcar, café e algodão. Já soja, carne bovina e arroz devem sofrer quedas no VBP no próximo ano.

Já o PIB da Agropecuária, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que considera apenas os valores da porteira para dentro, deve ter um aumento no próximo ano de 2,4% ante o fechamento de 1,8% projetado para este ano. A queda de 9% neste índice no terceiro trimestre, na comparação com o mesmo período do ano passado, era esperada, disse Lucchi.

“Historicamente, o PIB do terceiro trimestre é negativo porque as principais safras se concentram no primeiro semestre e neste ano ainda tivemos o problema climático do milho, mas esperamos uma recuperação no quarto trimestre”, afirmou.

Além do forte aumento dos custos de produção, a entidade cita como riscos e incertezas de 2022 as novas variantes da Covid-19, a preocupação dos produtores com a falta de insumos para a safra 2022/23, os gargalos do transporte marítimo, que já prejudicaram muitas exportações neste ano e não dão sinais de normalização no primeiro semestre de 2022 e as questões de meio ambiente impactando o comércio internacional.

Lígia Dutra destacou que o Brasil tem pouca presença no mercado internacional, com apenas 1% do comércio global  em geral e 7% no agro, o que é um agravante para conseguir transporte para a exportação. “O país precisa de mais inserção internacional. Importamos pouco e o comércio internacional é uma via de mão dupla. Se os navios não chegam com produtos que importamos, fica mais difícil exportar os nossos.”