Saiba por onde andam as nuvens de gafanhoto e por que o “sumiço” pode ser perigoso

Gafanhotos na Argentina (Foto: Senasa/Divulgação)

 

Após deixarem o Brasil em alerta diante de uma possível “invasão”, por onde andam as nuvens de gafanhoto que rodeavam a fronteira com o Rio Grande do Sul? Globo Rural conversou com especialistas para saber o paradeiro dos insetos e entender como as mudanças climáticas podem causar deslocamentos mais intensos nos próximos anos.

De acordo com o Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina (Senasa), hoje ainda há três nuvens do gafanhoto sul-americano na Argentina: uma na província de Jujuy, outra em Salta e uma terceira em Tucumán – todas no noroeste do país. Uma quarta nuvem, também em Tucumán, foi controlada nesta sexta-feira (30/10).

 


“O que está acontecendo neste momento é que o gafanhoto deve começar o seu estado reprodutivo dentro de pouco tempo. Isso levanta a possibilidade de deslocamentos por grandes distâncias em forma de nuvem”, diz o engenheiro-chefe do Programa de Controle de Gafanhotos e Tucuras do Senasa, Héctor Emilio Medina.

Seguramente, a partir da próxima semana, teremos a fase de oviposição. Por isso, estamos nos preparando para o controle dos grupos atuais, mas também das ninfas
Héctor Emilio Medina, engenheiro-chefe do Programa de Controle de Gafanhotos e Tucuras do Senasa 

Medina explica que a situação que levou à emergência dos insetos em 2020 é que, enquanto na Argentina as pragas estão no final de um ciclo de cinco anos, na Bolívia e Paraguai a Schistocerca cancellata atingiu apenas o seu terceiro ano. “Esse é um fator diferente para esse movimento nas regiões de Corrientes e Entre Ríos e a proximidade com as fronteiras de Brasil e Uruguai”, afirmou.

Gafanhotos na Argentina (Foto: Senasa/Divulgação)

 

Influência da mudança climática

O engenheiro da agência governamental argentina confirma que há uma relação entre a seca extrema que atinge as regiões de formação, o aquecimento global e o desenvolvimento dos gafanhotos. Segundo ele, a praga tem sido beneficiada desde 2014, com o excesso de chuva no inverno e temperaturas elevadas no verão.

 


“As questões-chave são as temperaturas e, sobretudo, a precipitação. Para esta espécie em particular, acredita-se que a precipitação é o que leva ao desenvolvimento da praga. Quanto mais precipitações, mais defecação. Assim, os gafanhotos têm mais alimentos e, por isso, se reproduzem de forma mais contínua”, pontua.

De acordo com o entomologista da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Jerson Carús Guedes, existe a possibilidade de mais grupos de gafanhotos nos próximos meses. Isso porque normalmente as emergências começam em outubro e, agora, estão atrasadas.

Eu não descartaria (novas nuvens), deixaria uma janela cuidadosa. Tenho conversado com os colegas da região norte da Argentina, fonte de emergência desses bichos, que está vivendo uma seca grande. Quando chover, eles esperam emergências e estão em alerta
Jerson Carús Guedes, entomologista da UFSM)

 

Para evitar futuros grupos na fase gregária, as autoridades brasileiras desenvolvem um trabalho para coibir o gafanhoto nas formas iniciais com os demais países da América Latina, por meio do Grupo Técnico de Gafanhotos do Comitê de Sanidade Vegetal (Cosave), e seguem em contato com os especialistas do Senasa.

Gafanhotos na Argentina (Foto: Senasa/Divulgação)

 

“Está sendo feito um trabalho muito bem coordenado entre os países do Cosave para atuar no manejo da praga no momento anterior à formação de nuvens. Então, na região formadora do Chaco está sendo objetivado um controle e monitoramento ainda nas fases prematuras”, afirmou o chefe da Divisão de Defesa Sanitária Vegetal da Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul, Ricardo Felicetti.

 


Além disso, a operação de vigia continua no Estado gaúcho. São 32 técnicos agropecuários nas áreas rurais, sendo 11 na região da fronteira oeste desenvolvendo trabalhos como a fiscalização de agrotóxicos, mas também atentos à possíveis focos da praga.

“Apesar de as nuvens estarem relativamente longe, a gente mantém o alerta e faz o monitoramento porque pode ter risco em virtude de eventuais crias que podem ter sido geradas nas proximidades e pela atual condição de umidade e seca prevista para as próximas semanas”, disse Felicetti. “É esperado que permaneça esse quadro de infestações nos próximos quatro ou cinco anos”, completa.

 

 

Relembre o caso

 

 

Não bastasse as turbulências, incertezas e dificuldades de acesso aos mercados dois meses após o início da fase mais dura do isolamento social por conta do coronavírus, em março, argentinos, paraguaios e brasileiros, sobretudo os produtores rurais do Rio Grande do Sul, tiveram de conviver com os riscos de ataques de uma praga bíblica às lavouras.

No dia 22 de maio, um boletim do Senasa alertava sobre o perigo de uma nuvem de gafanhotos egressa do Paraguai. No dia anterior, as equipes argentinas haviam se deslocado a Fortín Leyes, zona da província de Formosa na fronteira com as terras paraguaias, para confirmar a presença dos insetos da espécie Schistocerca cancellata.

 


Quase obra de ficção, aquele era um cenário inimaginável para a maioria dos brasileiros, que desde a década de 1940 não tinha contato com os bichos. No entanto, essa é uma realidade constante para os países vizinhos, que ano após ano realizam ações de combate para impedir o prejuízo aos cultivos de trigo, aveia, cevada e citros, entre outros.

É que a região desértica do Chaco, dividida por Argentina, Paraguai e Bolívia, é considerada o ponto de emergência das pragas. Em 2020, porém, não é só o cenário de pandemia que seria atípico. Com capacidade de deslocamento que pode chegar a 140 quilômetros por dia – embora tal movimento seja considerado raríssimo -, o gafanhoto sul-americano avançou rapidamente, passando pelas províncias argentinas de Chaco, Santa Fé e Corrientes.

Vídeoe mostra ataque de gafanhoto à lavoura na Argentina

 

 

A estimativa inicial para o primeiro de 10 grupos confirmados entre o fim de maio e agosto passou de 40 milhões para 400 milhões de insetos. No fim de julho, os gafanhotos chegaram a província de Entre Ríos, ficando a uma distância de 20 quilômetros para o Uruguai e a menos de 90 quilômetros do Brasil.

O alívio veio com a notícia, em agosto, de que, após sucessivas operações terrestres e aéreas, a nuvem havia sido controlada por técnicos do Senasa, restando apenas poucos remanescentes.

 

Desde então, outras nuvens surgiram. Uma delas, com 800 milhões de gafanhotos, o dobro daquela detectada em maio. Mas o perigo iminente aos plantios gaúchos foi reduzido consideravelmente com a erradicação do grupo que estava próximo a Barra do Quaraí (RS).

Apesar de a situação parecer sob controle, isso não significa, no entanto, que os acontecimentos de 2020 não voltarão a se repetir daqui para a frente.