Monitoramento de riscos de incêndios passa do Inpe para o Inmet e surpreende servidores

Prever o risco de queimadas mediante a expansão do fogo passa a ser uma atribuição do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), e não mais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A mudança, anunciada na segunda-feira (12/7) pelo diretor do Inmet, Miguel Ivan Lacerda de Oliveira, durante live com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, pegou de surpresa servidores ligados ao Inpe.

Fogo, queimada, Amazônia, Altamira, floresta, Pará, BR-163, rodovia, desmatamento  (Foto: Emiliano Capozoli/Ed.Globo)

 

“Foi lançado de forma conjunta pelo SNM [Sistema Nacional de Meteorologia] o Painel de Monitoramento ao Risco de Incêndio, ferramenta que monitora e divulga os locais com maior probabilidade de ocorrência de incêndios no Brasil”, informa o Inmet, em nota conjunta com o Inpe e o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam). “Esse produto é complementar aos produtos já implementados pelas Instituições e serve para melhorar o monitoramento de queimadas”, completa.

Pesquisador sénior e ex-diretor do Inpe, Gilberto Câmara foi um dos que se surpreendeu com o anúncio. Ele explica, no entanto, que a mudança diz respeito a apenas um aspectodo trabalho feito pelo Instituto no acompanhamento e monitoramento de queimadas no país.

 

Ele pondera que há uma relação entre o monitoramento de queimadas e a meteorologia. Explica que, em um contexto em que o fogo pode perder o controle e tomar maior proporção, o risco de queimadas apresenta o quanto a queimada pode se espalhar. Por isso é necessário levar em consideração o passado, o presente e o futuro. Ainda assim, ele, considera que o Inpe aceitou “erroneamente” a transferência de competência, já que as pesquisas sobre o risco de queimadas são feitas pelo Inpe há cerca de três décadas.

“Para calcular o risco, é preciso saber o que está queimando agora, e mais o que pode acontecer amanhã, que é a previsão do tempo”, diz Câmara. “Isso [a alteração] é ruim, porque o produto do Inpe é muito bom, é respeitado, e o Inmet não sabe gerar esse produto”, afirma.

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Apesar da alteração ter sido uma surpresa, nada deve mudar no monitoramento gerado pelo Programa Queimadas, segundo Alberto Setzer, pesquisador do Inpe e coordenador do programa entre as décadas de 1980 e 2020.

“Nosso trabalho vai continuar. Desconhecemos qualquer alteração nas nossas atribuições ou a divulgação de dados, resultados ou produtos. Não temos intenção de mudar nossos produtos, métodos, isso nunca foi questionado”, assegura.

“Cloroquina ambiental”

O Programa Queimadas, realizado pelo Inpe, tem supervisão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Informação (MCTI). Gilberto Câmara destaca, no entanto, nem o instituto nem a pasta participaram da reunião que deifniu a mudança no monitoramento dos incêncdios: apenas o Inmet, Ministério da Agricultura e Ministério do Meio Ambiente.

Diante da situação, ele diz acreditar que “o Ministério da Agricultura quer esconder informação”, já que o período de seca está começando e há risco de queimadas severas para os próximos meses. 

“Qual é o interesse? É a cloroquina ambiental, ou seja, eu passo a produzir um dado pior, para poder subestimar o que está por vir. Se passar a informar um risco menor, obviamente dará a impressão de que a situação não está tão séria quanto está”, diz ele, em referência ao medicamento considerado ineficaz para o tratamento da Covid-19.

 

Câmara, que também é ex-diretor do Grupo de Observação da Terra (GEO, em inglês), ainda observa que não é a primeira tentativa de enfraquecer o Inpe. “O primeiro objetivo era tirar a responsabilidade de gerar os dados, em 2019, quando o professor Galvão foi o único diretor que enfrentou o [presidente] Bolsonaro”, lembra, citando Ricardo Galvão, que foi exonerado do cargo de diretor do Instituto. “A intenção era tirar o monitoramento da Amazônia do Inpe, e agora vem de novo”, comenta.

Ele afirma que o governo brasileiro não tem credibilidade no exterior, enquanto “o Inpe tem o maior respeito da comunidade científica internacional”. Por isso, a mudança só “piora o que já está ruim”, afinal o instituto não é o único produtor de dados sobre o Brasil. “Ou seja, não vai enganar ninguém. É uma tentativa que mostra que não sabem o que estão fazendo”, afirma.