Resistência a Antibióticos: medidas que podem evitar o surgimento de organismos mais resistentes

A detecção de casos do fungo Candida auris no Brasil, confirmada nesta semana, em um hospital de Recife (PE), é mais um alerta sobre a presença de microrganismos mais resistentes a medicamentos e outros produtos para controle de pragas e doenças. De acordo com publicação do Ministério da Saúde, o fungo foi identificado pela primeira vez no Japão, em 2009, é considerado emergente e representa uma ameaça global, já que tem apresentado resistência às principais classes de medicamentos antifúngicos.

A Resistência a Antibióticos (RAM) é um processo natural, que ocorre ao longo do tempo, dentre as espécies de microrganismos. No entanto, estudos apontam que esse processo tem sido acelerado, criando linhagens de bactérias, vírus, fungos e parasitas que ameaçam o meio ambiente, a agropecuária, a saúde animal e a humana. E indicam como um dos motivos o uso inadequado de medicamentos para humanos e animais.

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Membras do estudo piloto sobre a RAM desenvolvido pela FAO em um laboratório em Nairóbi, no Quênia (Foto: FAO/Luis Tato)

 

No seminário “Uma nova pandemia: discutindo estratégias para conter a resistência bacteriana”, transmitido via internet pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e pela organização não governamental Proteção Animal Mundial, Daniel Moreira Pinto Cruz, médico-veterinário e coordenador das pesquisas de Bem-Estar Animal da ONG, afirmou que a demanda por carnes aumenta a pressão sobre a cadeia produtiva, levando a um uso mais intenso dos medicamentos nos planteis.

“As fazendas e granjas industriais intensivas têm utilizado os antibióticos de duas principais formas: de forma profilática ou preventiva; e como promotores de crescimento, quando são usados em baixas dosagens justamente para modular a microbiota intestinal para aumentar a eficiência na conversão alimentar”, argumentou Cruz.

 

O policy paper “Como evitar a próxima catástrofe sanitária: resistência antimicrobiana”, publicado no fim do seminário, ressalta que a superexposição aos medicamentos estimula a seleção dos organismos mais resistentes aos fármacos, que sobrevivem e têm sua reprodução e propagação beneficiada.

Estudos apontam ainda que não são apenas humanos e animais os afetados pelo crescimento da população dos microrganismos multirresistentes. No relatório “Bactérias multirresistentes: em um rio próximo de você”, a Proteção Animal Mundial aponta que o meio ambiente também é atingido.

 

A discussão sobre resistência a antibióticos tem sido feita em escala global. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) avalia que o controle da RAM é urente. E desenvolveu um plano de ações para incentivar inovações e mudanças. Conheça algumas das ações necessárias destacadas pela agência da ONU e outros especialistas.

Uso racional de medicamentos  na saúde humana

O consumo de antibióticos deve ser controlado e respeitar a prescrição médica de tratamento e tempo de uso. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), tanto a automedicação quanto a utilização de antibióticos em um períodos incorretos (maiores ou menores que o tratamento prescrito) contribuem para a resistência antimicrobiana. Para o Idec, o sistema público de saúde no Brasil deve assegurar o devido diagnóstico e o acesso adequado aos medicamentos.

 

Uso racional de medicamentos na saúde animal

O uso racional de medicamentos na saúde animal também é um ponto fundamental, defendem especialistas. Assim como para a saúde humana, antibióticos devem ser usados apenas para sua finalidade específica de tratamento, não de forma preventiva ou como indutores de crescimento em rebanhos e planteis de produção. Na visão do Idec, é preciso estabelecer o que chama de padrões mínimos responsáveis para o uso de antibióticos na pecuária. E ter um controle e fiscalização maior sobre sua comercialização.

O plano de ações da FAO também atenta para a necessidade do uso responsável desse tipo de medicamento. A agência da ONU chama a atenção para a importância de consultar especialistas no assunto e fazer o uso a partir deuma prescrição correta e adequada. E recomenda o treinamento de todas as partes da cadeia sobre a importância de se reduzir o uso inadequado de antibióticos.

Produção, demanda e consumo

Diante da maior exigência da sociedade por boas práticas, tem surgido iniciativas dentro da própria cadeia produtiva, de promoção de produtos “livres de antibióticos” ou de planteis “criados sem antibióticos”. Em seu relatório, o Idec alerta que esse tipo de prática pode ter um efeito contrário, desestimulado o produtor a tratar o animal infectado. Segundo a instituição, o ideal é reduzir o uso do antibiótico em uma política de bem-estar animal.

A ONG Proteção Animal Mundial defende a promoção dos níveis mais altos de bem-estar animal. Menciona, por exemplo, o privilégio a linhagens de frango de crescimento natural e de bovinos alimentados a pasto. Para a ONG, o compromisso com o uso responsável de antibióticos deve ser acompanhado de informações sobre o cumprimento desses objetivos. Indo além, a organização avalia que a redução do consumo de carne em escala global, com a introdução de alimentos vegetais, pode levar a um menor uso de antibióticos.

Já em seu plano de ação, a FAO alerta que a resistência antimicrobiana pode ser originada também através de plantas. Por isso, seu manejo requer atenção. 

“Para manter a saúde das plantas, evitando a propagação de doenças, ao mesmo tempo em que se reduz a resiliência a pesticidas antimicrobianos, é crucial a promoção de práticas mais ambientalmente amigáveis de proteção de plantas, como o Manejo Integrado de Pragas”, diz a FAO. “Microrganismos resistente podem ser intruduzidos durante o manuseio, processamento, transporte, armazenamento e preparação de alimentos”, lembra a agência.

 

Tecnologia e novos medicamentoss

A inovação tecnológica é considerada fundamental para o controle da resistência a antibióticos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), “há uma grande lacuna na inovação de antibióticos”, que vem tendo queda de produção.

A FAO faz análise semelhante, ao defender incentivos e investimento em novas descobertas de medicamentos que possam substituir os atuais. “Os esforços atuais para o desenvolvimento de pesquisas de novos microbianos são inadequados e precisam de incentivos e investimento. Precisamos manter os antimicrobianos funcionando o quanto for possível para ganhar tempo de descobrir novos medicamentos.”

 

Regulamentações e comunicação

Na visão de organizações e especialistas, é preciso que os Estados estabeleçam acordos, regulamentações e leis que tenham como finalidade controlar a resistência antimicrobiana. O Idec, por exemplo, defende que o serviço de vigilância sanitária deve fortalecer a as políticas de vigilância epidemiológica, monitoramento e transparência de informações.

Em sentido mais amplo, a FAO avalia que as ações de “governança” dependem de vontade política e de instituições bem informadas. O cumprimento de planos nacionais e sua smetas dependem de uma colaboração multisetorial e multidisciplinar, avalia a agência da ONU. Além do fortalecimento das bases regulatórias e apoio à inovação.

“As partes interessadas deveriam se envolver no desenvolvimento de políticas e na tomada de decisõesnos estágios iniciais dos processo de implantação. Neste sentido, podem desenvolver um amaior senso de propriedade e de comprometimento”, defende a agência da ONU.

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